Referência: ROMANOS 13.1-7

EXÓRDIO:
Nossa obediência às autoridades não é servil. Deve ser positiva e crítica. Diz João Calvino que a igreja deve ser a consciência do Estado, alertando-o sempre de seu papel. A poder das autoridades possui balizas e limites. O Estado não pode ser absolutista, divinizado, encabrestando as consciências e violentando e determinando o foro íntimo das pessoas.

I. A ORIGEM DA AUTORIDADE

1. Procede de Deus – v. 1
Deus é a fonte de toda autoridade e os que exercem autoridade na terra o fazem por delegação divina. A autoridade precisa reconhecer que sua autoridade é delegada. Quem exerce autoridade, a exerce debaixo da autoridade de Deus. Está subalterno à autoridade de Deus. Foi constituído por Deus para governar de conformidade com a justiça. Deus é o protótipo e o arquétipo da autoridade. É a autoridade de Deus que se exerce, quando exercem as autoridades civis sua autoridade a serviço do bem.

2. O compromisso de obedecer às autoridades – v.1,5
A atitude a assumir em face das autoridades é sujeição. O termo “hypotalassesthai” não implica de modo algum um servilismo. Trata-se de uma sujeição como convém no Senhor. Essa sujeição visa evitar a desordem e promover a paz.
Conforme o v. 5, a obediência à autoridade não tem o caráter de resignada submissão inspirada pelo temor ou medo, seja de multa, seja de prisão. Sua obediência não é só por medo de conseqüências. Você obedece por questão de consciência, pois aceita que a autoridade vem de Deus e quando obedece a autoridade, obedece a Deus.

3. A atitude de não resistir a autoridade – v. 2
“Se opõe” = lançar em batalha contra. Paulo está falando de uma resistência formal, planejada, proposital e sistemática. (Hai gobierno, soi contra). A resistência que podemos ter não é ao princípio de autoridade, mas aos desmandos da autoridade. Quando a autoridade foge do seu caminho, quando deixa de ser ministro de Deus para praticar e incentivar o bem e se torna opressor, corrompendo-se, burlando as leis ou criando leis injustas de opressão, quando cria meios e instrumentos para espoliar os fracos, quando, quando suborna os tribunais, quando arrebata o direito do inocente, quando ama o luxo em detrimento da fome e da miséria do povo a quem governa, quando promove o erro e induz o povo a se desviar, quando colabora com a depravação moral e com o desbarrancamento da virtude, ENTÃO ESSE GOVERNO PRECISA SER ALERTADO
A) Como Amós alertou o rei Jeroboão II em Israel
B) Como João Batista repreendeu Herodes em Jerusalém
C) Como os apóstolos alertaram o Sinédrio dos judeus
D) Como Lutero alertou a aristocracia feudal no século XVI
E) Como Calvino alertou os tecnocratas genebrinos
F) Como Wesley condenou o tráfego desumano dos escravos no século XVIII
G) Como John Bunyan recusou obedecer as autoridades que lhe proibiram de pregar na Inglaterra
H) Como Finney alertou sobre a impiedade da escravidão
I) Como Dietrich Bonhoeffer ergueu sua voz contra o nazismo alemão
Exemplo: A PROPAGANDO DO GOVERNO SOBRE A AIDS

O povo de Deus não pode a título de obediência ser colaboracionista, entreguista, conivente com a corrupção e a maldade. A igreja européia foi colaboracionista com o nazismo carrasco de Hitler. No Brasil muitos pastores foram entreguista no regime da repressão.

Quando o governo desvia-se de sua rota e se rebela contra a autoridade de Deus, nós precisamos resistí-la como MESAQUE, SADRAQUE E ABEDE-NEGO resistiram às ordens de Nabucodonosor para adorar a sua imagem; como DANIEL resistiu à trama que lhe armaram seus inimigos políticos para não orar a Deus; como os CRISTÃOS PRIMITIVOS resistiram para não adorar ao imperador, ainda que selando essa resistência com o próprio sangue, incendiados nos jardins de Roma e pisoteados no coliseu romano.

Oscar Culmann disse que poucos ordens do Novo Testamento sofreram tantos abusos como este. Muitos se entregaram a uma subserviência aos ditames de governos totalitários. Nesses horas, temos que entender e responder como os apóstolos: “Antes importa obedecer a Deus que aos homens.”

Todavia, é grave pecado resistir a autoridade. Quem a resiste resiste a Deus. Desobedecer a autoridade constituída é rebelião contra Deus. E ninguém pode resistir a Deus senão para a sua própria ruína. O que resiste a autoridade, esforça-se para transtornar a ordem de Deus. E essa resistência gera a desordem, patrocina a anarquia e o desgoverno e estabelece o caos. Os que resistem a autoridade constituída, trarão sobre si mesmos condenação.

II. A NATUREZA DA AUTORIDADE V. 4,6

“Ela é ministro de Deus.” João Calvino disse: “Não se deve por em dúvida que o poder civil é uma vocação, não somente santa e legítima diante de Deus, mas também mui sacrossanta e honrosa entre todas as vocações.”
Os magistrados precisam entender sua vocação, seu chamado, seu ministério. Eles não são autocratas, mas homens vocacionados por Deus. São ministros de Deus, representantes de Deus, estão sob a mão de Deus. São mordomos de Deus. Conforme declara Calvino nas Institutas são vigário de Deus.
Sua autoridade está sob a autoridade de Deus. Seu poder não vem dele mesmo. Não são absolutistas. Não governam à parte de Deus, sem a direção de Deus, sem reconhecer a soberania de Deus, a justiça de Deus. Não governarão bem sem conhecerem a ética de Deus, os valores de Deus, os propósitos de Deus, a Palavra de Deus. Por isso, dizia Abraão Lincoln: “É impossível governar bem sem a Palavra de Deus.”
A autoridade não é constituída para dominar com rigor e despotismo, com violência e truculência, mas para o bem. A autoridade não recebe poder ilimitado para rechaçar a autoridade de Deus que está acima dela. Por isso governantes que não crêem em Deus, que abraçam ideologias contrárias à soberania de Deus, ou que se dobram diante dos ídolos pecam contra Deus, pecam contra o povo e pecam contra a vocação de ministros de Deus.
Como a autoridade que nega a existência de Deus pode ser ministro de Deus? Como pode representar Deus? A autoridade que descrê de Deus como pode agir em seu nome? A autoridade que não crê que toda justiça procede de Deus como pode praticar a justiça? A autoridade que descrê da soberania e providência divina cai no humanismo idolátrico ou no fatalismo histórico. Sem Deus como referencial a autoridade se desumaniza.
Daí as opressões, daí o totalitarismo desumano. Daí os desatinos históricos que soterraram multidões debaixo da tirania, da tortura e do holocausto. Por isso levantaram-se facínoras, ditadores carrascos, insolentes, que governaram para o mal e não para o bem.
MAS COMO EXPLICAR ENTÃO AS AUTORIDADES MÁS, SE SÃO MINISTROS DE DEUS? João Calvino responde: “É possível que um mal rei seja um açoite de Deus, pelo qual Deus castiga os pecados de um povo; então, tendo nossa parte nesses pecados, devemos entender que por falta nossa uma bênção tem sido transformada em maldição.” (Assíria – vara da ira de Deus Is. 10.1).

III. A FINALIDADE DA AUTORIDADE

A autoridade constituída tem dupla finalidade. Ambas importantes e fundamentais para o progresso e a paz da sociedade.

1. Promover o bem – v. 3,4
Se a autoridade é representante de Deus e se Deus é justo e bom, essa autoridade precisa se compatibilizar com o caráter de quem ela representa. Ninguém pode representar alguém se nega essa alguém, se contraria a vontade desse alguém, se torce as palavras desse alguém, se trai essa alguém.
A autoridade é ministro de Deus para TEU BEM:
1.1. Bem Espiritual – Calvino diz que o governo deve cuidar para que os cultos idolátricos não se aninhem no coração do povo. O governo deve promover a verdade. Quando o governo promove a idolatria, a feitiçaria e o ateísmo, está cavando uma cova de tropeço para ele e para a sua nação, prodigalizando a pobreza e a infelicidade do seu povo, pois só é “FELIZ A NAÇÃO CUJO DEUS É O SENHOR.”
1.2. Bem político – O objetivo do governo civil não é promover o bem-estar dos governantes, mas dos governados. Maldito é o ministro que apascenta a si mesmo. Maldito é o legislador que legisla em causa própria. Maldito é o governo que vive nababescamente, enquanto seu povo geme oprimido.
1.3. Bem social – O governo precisa promover a dignidade da vida, estabelecer a justiça, defender a liberdade, coibir preconceitos e defender os humildes. Não pode ser corruptor, corrupto nem parcial.
1.4. Bem econômico – O governo precisa valorizar o homem e o seu trabalho, afim de que as riquezas sejam distribuídas com mais justiça. O Brasil é o penúltimo país do mundo que mais mal distribui suas riquezas.
1.5. Bem moral – O governo precisa estimular e promover o alto nível moral do seu povo. Um grande povo tem se ser um povo sadio moralmente. Uma nação sem valores morais fortes é uma nação fraca e vulnerável. Nossa nação está se desfibrando moralmente a partir dos nossos líderes.

2. Castigar o mal – v. 3,4
A autoridade deve ser austera no combate ao mal. O governo não pode ser complacente com a injustiça, com o mal, com a anarquia, com as forças desintegradoras e corruptas que solapam com a segurança e tranqüilidade da sociedade.
O governo não pode agir com frouxidão no castigo do mal e dos promotores do mal. Tem de reagir com todo rigor e firmeza contra toda forma de violência, de crime, de suborno, de falseamento da verdade, para que a maldade, a violência e o crime não sejam estimulados pela impunidade.
Assim como Deus não tolera o mal, assim como a injustiça não se assenta no trono de Deus, assim como Deus abomina e repudia toda violência e insolência dos perversos, a autoridade também deve ter pulso forte para combater essas manifestações e implantar a ordem, a paz, a justiça e o bem-comum.
O governo não pode deixar-se subornar para torcer a justiça. Ele não pode trair a sua vocação. Ele não pode inocentar o culpado nem culpar o inocente. Não pode favorecer os poderosos e injustiçar os fracos. Não pode acobertar o erro seja na favela, seja no palácio.
Infelizmente, tem dominado hoje a Lei Darwiniana = a sobrevivência do mais forte, do mais poderoso, do mais esperto, do que mais explora, do que mais corrompe, do que mais suborna.
Disse Agostinho: “Sem justiça que são os reinos, senão grandes bandos de ladrões?”
Vivemos hoje num clima de tensão e medo. Cresce a cada dia a violência. É necessário firmeza no combate a essa horda de criminosos. Precisamos defender a santidade da vida, punindo os criminosos e coibindo e reprimindo a violência.

CONCLUSÃO

Que possamos obedecer com critério as autoridades constituídas, sendo ao mesmo tempo voz proféticas a elas, sempre que se desviarem de sua sacrossanta vocação. Que sejamos verdadeiros cidadãos na terra, assim como somos cidadãos dos céus. Amém.

Rev. Hernandes Dias Lopes.
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