Referência: Filipenses 2.6-11

INTRODUÇÃO

1. A doutrina sempre deve estar conectada com a vida

Este é o texto clássico da cristologia na Bíblia. William Barclay diz que esta é a passagem mais importante e mais emocionante que Paulo escreveu sobre Jesus. Aqui Paulo alcança as alturas mais excelsas da sua reflexão teológica acerca do Filho de Deus. Porém, o contexto revela-nos que Paulo está tratando de um problema prático na vida da igreja, exortando os crentes à unidade. Ou seja, Paulo está expondo seu pensamento teológico mais profundo para resolver um problema de desunião dentro da igreja. A teologia deve sempre estar conectada com a vida. A teologia determina a ética. A doutrina é a base para a solução dos problemas que atacam a igreja. A igreja precisa pensar teologicamente. Nessa mesma linha de pensamento William Barclay comenta:

Em Paulo sempre se unem teologia e ação. Para ele, todo sistema de pensamento deve necessariamente converter-se em um caminho de vida. Em muitos aspectos esta passagem é uma daquelas que tem o maior alcance teológico do Novo Testamento, mas toda a sua intenção está em persuadir e impulsionar os filipenses a viverem uma vida livre de desunião, desarmonia e ambição pessoal.

2. A vida de Cristo é o exemplo máximo para a igreja

Paulo corrige os problemas internos da igreja de Filipos não apenas lhes oferecendo conceitos doutrinários, mas mostrando-lhes o exemplo de Cristo. O melhor remédio para curar os males da igreja é olhar para Jesus, seguir os seus passos e imitar seu exemplo (2.5). A igreja de Filipos estava sendo atacada por inimigos externos e por intrigas internas. Para corrigir ambos os males, ela deveria olhar para Jesus.

William Hendriksen corretamente afirma que há uma área em que Cristo não pode ser nosso exemplo. Não podemos imitir seus atos redentivos e nem sofrer e morrer vicariamente. Mas, com o auxílio de Deus, podemos e devemos imitar o espírito que serviu de base para esses atos. A atitude de auto-renúncia, com vistas a auxiliar outros, deveria estar presente e se expandir na vida de cada discípulo (Mt 11.29; Jo 13.12-17; 13.34; 21.19; 1Co 11.1; 1Ts 1.6; 1Pe 2.21-23; 1Jo 2.6). O mesmo autor ainda afirma que se Jesus não é nosso exemplo, então nossa fé é estéril e nossa ortodoxia, morta.

I. A HUMILHAÇÃO DE CRISTO (2.6-8)

1. Ele voluntariamente abriu mão de seus direitos (2.6)

Jesus antes da sua encarnação sempre foi Deus co-igual, co-eterno e consubstancial com o Pai e com o Espírito Santo. Ele sempre foi revestido de glória e majestade (Jo 17.5). Ele é o criador de todas as coisas, visíveis e invisíveis (Cl 1.16). Ele sempre foi adorado pelos anjos nas coortes celestiais.

A expressão “subsistindo em forma de Deus” (2.6) é muito importante para entendermos a divindade de Cristo. William Barclay diz que a palavra “subsistindo” hyparquein descreve aquilo que é essencial e que não pode ser mudado; aquilo que possui uma forma inalienável. Descreve características inatas, imutáveis e inalteráveis. Assim, pois, Paulo começa dizendo que Jesus é Deus em forma essencial, inalterável e imutável.

Logo Paulo continua dizendo que Jesus “subsistia em forma de Deus”. Há duas palavras gregas para forma: morphe e schema. Ambas podem ser traduzidas por “forma”. Mas, elas não têm o mesmo significado. Morphe é forma essencial de algo que jamais se altera; schema é a forma externa que muda de tempo em tempo e de circunstância em circunstância. A palavra que Paulo usa com referência a Jesus é morphe. Jesus está de maneira inalterável na forma de Deus; sua essência e seu ser imutável são divinos. Werner de Boor faz referência à bela formulação de Lutero: “O Filho do Pai, Deus por natureza…”. Nesta mesma linha de pensamento Ralph Martin diz que morphe é “natureza essencial” em oposição à “forma exterior” schema. O erudito Lightfoot diz que morphe implica não em características externas, mas em atributos essenciais.

Há uma profunda conexão entre morphe e schema. A primeira se refere àquilo que é anterior, essencial e permanente na natureza de uma pessoa ou coisa; enquanto a segunda aponta para seu aspecto externo, acidental ou aparente. O que Paulo está dizendo, pois, em Filipenses 2.6 é que Cristo Jesus sempre foi (e continuará sempre sendo) Deus por natureza, a expressa imagem da Divindade. O caráter específico da Divindade, segundo se manifesta em todos os atributos divinos, foi e é sua eternidade, diz William Hendriksen. Jesus sempre foi Deus (Jo 1.1; Cl 1.15; Hb 1.3). Ele sempre possuiu toda a glória e louvor no céu. Com o Pai e o Espírito Santo, ele sempre reinou sobre o universo.

Há uma outra verdade gloriosa exposta no versículo 6. O apóstolo Paulo diz que Jesus “não julgou como usurpação o ser igual a Deus”, ou seja, não considerou a sua igualdade com Deus como “algo que deveria reter egoisticamente”. A palavra grega aqui traduzida por “usurpação” é harpagmos. Essa palavra só aparece aqui em toda a Bíblia. Ela provém de um verbo que significa arrebatar ou aferrar-se. Jesus não se agarrou aos privilégios de sua igualdade com Deus, antes abriu mão dela por amor aos homens. Ralph Martin afirma que para o Cristo pré-encarnado, ao invés de imaginar que igualdade com Deus significa obter, ao contrário, ele deu – deu até tornar-se vazio.

F. F. Bruce interpreta corretamente essa questão, quando escreve:
Não existe a questão de Cristo tentar arrebatar, ou apoderar-se da igualdade com Deus: ele é igual a Deus, porque o fato de ele ser igual a Deus não é usurpação; Cristo é Deus em sua natureza. Tampouco existe a questão de Cristo tentar reter essa igualdade pela força. A questão fundamental é, antes, que Cristo não usou sua igualdade com Deus como desculpa para auto-afirmação, ou autopromoção; ao contrário, ele a usou como ocasião para renunciar a todas as vantagens ou privilégios que a divindade lhe proporcionava, como oportunidade para auto-empobrecimento e auto-sacrifício sem reservas.

Jesus não pensou em si mesmo; ele pensou nos outros. Ele abriu mão de sua glória, desceu das alturas e, usou seus privilégios para abençoar os outros.

Certa feita um repórter entrevistou um próspero orientador profissional.

- Qual é o segredo do seu sucesso? Perguntou o repórter.
- Se quiser descobrir o que vale realmente um trabalhador, não lhe dê responsabilidades; dê-lhe privilégios, respondeu o orientador. Muitas pessoas são capazes de cumprir responsabilidades, mas só um líder sabe lidar com privilégios, usando-os para ajudar os outros. Um homem inferior servir-se-á dos privilégios para autopromoção. Jesus usou os seus privilégios celestes para o bem dos outros. A Bíblia diz que ele andou por toda a parte, fazendo o bem e curando a todos os oprimidos do diabo (At 10.38).

Vale a pena contrastar a atitude de Cristo com a de Lúcifer (Is 14.12-15) e com a de Adão (Gn 3.1-7). Lúcifer foi o mais elevado dos seres angélicos, assistindo junto ao trono de Deus (Ez 28.11-19), mas desejou ser igual a Deus e sentar-se sobre o seu trono. Lúcifer declarou: “Eu farei”, mas Jesus disse: “Faça-se a tua vontade”. Lúcifer não se contentou em ser uma criatura, queria ser o criador; Jesus era o criador e, voluntariamente, fez-se homem. A humildade de Jesus constitui uma reprovação ao orgulho de Satanás. Lúcifer não se contentou apenas em ser rebelde, mas invadiu o Éden e tentou o homem à rebeldia. Adão tinha tudo, era o rei da criação, mas Satanás lhe disse: “Sereis como Deus”. O homem então, tentou agarrar algo que estava para além do seu alcance e assim precipitou toda a raça humana no pecado e na morte. Adão pensou unicamente em si; Jesus Cristo pensou nos outros. F. F. Bruce coloca essa questão assim: “Adão, criado homem, à imagem de Deus, tentou arrebatar para si uma falsa e ilusória igualdade com Deus. Cristo alcançou senhorio universal mediante sua renúncia, enquanto Adão perdeu seu senhorio mediante o roubo do fruto proibido”.

Robertson corretamente afirma que Paulo não está aqui nos oferecendo apenas uma técnica discussão teológica acerca da pessoa de Cristo; em vez disso, ele está fazendo um uso prático da encarnação de Cristo para enfatizar a grande lição da humildade como fator essencial para a unidade. Cristo se humilhou e nós também devemos fazê-lo.

2. Ele se esvaziou (2.6,7)

O Filho de Deus deixou o céu, a glória, seu trono, e fez-se carne, fez-se homem, se encarnou. Aquele que em seu estado pré-encarnado é igual a Deus é a mesma Pessoa que se esvaziou. O verbo grego kenou “se esvaziou”, literalmente significa “tirar algo de um recipiente até que fique vazio” ou “derramar algo até que não fique nada”. Paulo usa aqui a palavra mais gráfica possível para que se faça patente o sacrifício da encarnação.

Do que Cristo se esvaziou? Certamente não foi da existência “na forma de Deus”. Isso seria impossível. Ele continuou sendo o Filho de Deus. Indubitavelmente, Cristo renunciou seu ambiente de glória. Ele pôs de lado sua majestade e glória (Jo 17.5), mas permaneceu Deus. Ele jamais deixou de ser o possuidor da natureza divina. Mesmo em seu estado de humilhação ele jamais se despojou de sua divindade.

F. F. Bruce diz que em vez de explorar sua igualdade com Deus, e dela auferir vantagens, Jesus se despojou a si próprio, não de sua natureza divina, visto que isso seria impossível, mas das glórias e das prerrogativas da divindade. Isto não significa que ele trocou sua natureza (ou forma) divina pela natureza (ou forma) de um escravo: significa que ele demonstrou a natureza (ou forma) de Deus na natureza (ou forma) de um escravo. No cenáculo, Jesus pegou uma bacia, cingiu-se com uma toalha e lavou os pés dos discípulos e depois, disse-lhes: “Vós me chamais o Mestre e o Senhor e dizeis bem; porque eu o sou. Ora, se eu, sendo o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns dos outros”.

William Hendriksen, abrindo uma janela para o nosso entendimento dessa gloriosa verdade, diz que a inferência é que Cristo se esvaziou de sua existência-na-forma-de-igualdade-a-Deus e ilustra com alguns pontos.

Em primeiro lugar, ele renunciou sua relação favorável à lei divina. Enquanto permanecia no céu nenhuma carga de culpa pesava sobre ele. Entretanto, ao encarnar-se, ele que não conheceu pecado, se fez pecado por nós (Jo 1.29; 2Co 5.1); ele que era bendito eternamente se fez maldição por nós (Gl 3.13) e levou sobre seu corpo, no madeiro, todos os nossos pecados (1Pe 2.24).

Em segundo lugar, ele renunciou suas riquezas. O apóstolo Paulo diz: “Pois conheceis a graça de nosso Senhor Jesus Cristo, que sendo rico, se fez pobre por amor de vós, para que, pela sua pobreza, vos tornásseis ricos” (2Co 8.9). Jesus renunciou tudo, até mesmo sua própria vida (Jo 10.11). Tão pobre ele era que tomou emprestado um lugar para nascer, uma casa para pernoitar, um barco para pregar, um animal para cavalgar, uma sala para reunir e um túmulo para ser sepultado.

Em terceiro lugar, ele renunciou sua glória celestial. Ele tinha glória com o Pai antes que houvesse mundo (Jo 17.5). Mas, voluntariamente deixou a companhia dos anjos e veio para ser perseguido e cuspido pelos homens. Do infinito sideral de eterno deleite, na própria presença do Pai, voluntariamente ele desceu a este reino de miséria a fim de armar sua tenda com os pecadores. Ele, em cuja presença os serafins cobriam o rosto, o objeto da mais solene adoração, voluntariamente desceu a este mundo, onde foi “desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer” (Is 53.3).

Em quarto lugar, ele renunciou o livre exercício de sua autoridade. Ele voluntariamente se submeteu ao Pai e diz: “Eu não procuro a minha própria vontade, e, sim, a daquele que me enviou” (Jo 5.30).

Bruce Barton comentando este texto diz que Jesus não era parte homem e parte Deus; ele era completamente humano e completamente divino. Antes de Jesus vir ao mundo, as pessoas só podiam conhecer a Deus parcialmente. Depois, puderam conhecê-lo plenamente, porque ele se tornou visível e tangível. Cristo é a perfeita expressão de Deus em forma humana. Ele é a exegese de Deus. Nele habita corporalmente toda a plenitude da divindade. Como homem, porém, Jesus estava limitado a lugar, tempo, e outras limitações humanas. Contudo, ele não deixou de ser plenamente Deus ao tornar-se humano, embora tenha abdicado de sua glória e seus direitos.

É estonteante refletir que Paulo tenha escrito sobre esse sublime mistério da humilhação de Cristo para ensinar a igreja de Filipos acerca da humildade nos relacionamentos. Werner de Boor corrobora, dizendo:

Será que haveria pessoas em Filipos que deveriam doar, ceder, tornarem-se humildes, mas que declarariam: “Não se pode exigir isso de mim. Isso é demais para minha boa vontade!” Será que qualquer um deles, Paulo ou os filipenses, ainda pode reivindicar quaisquer direitos no serviço a esse Jesus? “Esvaziar-se”, renunciar, tornar-se pequeno – será que ainda seria difícil agir assim depois de ouvir acerca desse Jesus e da forma com que ele abriu mão do que tinha: passando da forma divina para figura de escravo? Será que esse incrível salto para as profundezas poderia ser comparável ao salto de um pecador perdido e condenado para se tornar escravo desse Jesus? Se em algum momento houver problemas com a concórdia e comunhão dos irmãos porque alguma coisa ainda está sendo retida, então Jesus ainda não foi corretamente apreendido. É justamente por isso, não para escrever capítulos de uma obra doutrinária, que Paulo mostra Jesus aos filipenses.

3. Ele serviu (2.7)

O eterno Filho de Deus não nasceu num palácio. O Rei dos reis não nasceu num berço de ouro nem entrou no mundo por intermédio de uma família rica e opulenta; ao contrário, nasceu num berço pobre, numa família pobre, numa cidade pobre. Jesus nasceu numa manjedoura, cresceu numa carpintaria e morreu numa cruz. Ele não veio ao mundo para ser servido, mas para servir (Mc 10.45).

Jesus não pensou nos outros apenas de forma abstrata; ele assumiu a forma de servo, ele serviu. A palavra “forma” aqui é novamente morphe, uma forma absoluta. Jesus não fingiu ser um servo. Ele não foi um ator no desempenho de um papel. Ele de fato foi servo! A única pessoa no mundo que tinha razão de fazer valer seus direitos, os renunciou. E foi Cristo Jesus mesmo que disse: “Pois, no meio de vós, eu sou como quem serve” (Lc 22.27). Jamais algum servo serviu com mais imutável lealdade, abnegada devoção e irrepreensível obediência do que Jesus. O Senhor de todos tornou-se servo de todos (Mt 20.27; Mc 10.45). Jesus assumiu a forma de servo como ele era antes em toda a eternidade em forma de Deus.

Jesus serviu aos pecadores, às meretrizes, aos cobradores de impostos, aos doentes, aos famintos, aos tristes e enlutados. Quando seus discípulos, no cenáculo, ainda alimentavam pensamentos soberbos, ele pegou uma toalha e uma bacia e levou os seus pés (Jo 13.1-13).

4. Ele se tornou em semelhança de homens (2.7)

O que Paulo quer dizer quando afirmou que Cristo Jesus se tornou em semelhança de homens e foi reconhecido em figura humana? Aquele que era em forma de Deus e era igual a Deus desde toda a eternidade tomou a forma de um homem num particular momento da história. Robertson corretamente afirma que a humanidade, embora completamente real e não meramente aparente como firmavam os docéticos gnósticos, não podia expressar tudo o que Cristo verdadeiramente era. Ele continuou subsistindo em forma de Deus em sua natureza essencial a despeito de sua encarnação. Ele conservou a natureza essencial de Deus mesmo depois de se tornar em semelhança de homens.

William Hendriksen diz que embora os homens estivessem certos em reconhecer a humanidade de Cristo estavam errados em dois aspectos: Rejeitaram sua humanidade impecável e sua divindade. E ainda que toda sua vida, particularmente, suas palavras e atos poderosos manifestassem “a divindade velada na carne”, todavia, de um modo geral, rejeitaram suas reivindicações e o odiaram ainda mais por causa delas (Jo 1.11; 5.18; 12.37). Cumularam-no de escárnio, de forma que “era desprezado e o mais rejeitado entre os homens…” (Is 53.3).

Neste versículo 7, o apóstolo Paulo usa três palavras gregas que nos ajudam a entender o que significa para o eterno Filho de Deus se tornar m semelhança de homens. A primeira palavra é morphe, a mesma palavra usada no verso 6 para expressar “forma de Deus”. Essa palavra foi usada para falar de Jesus em forma de Deus, e, agora, é usada para falar dele em forma de servo. A palavra morphe segundo James Montgomery Boyce tem diferentes significados na língua grega; ela se refere tanto ao caráter interno de uma pessoa ou coisa como a forma externa que expressa esse caráter interno. Desta maneira, quando Paulo diz que Cristo tomou a forma de servo ele quer dizer que Cristo se tornou homem tanto internamente como externamente. Já temos visto que Cristo possuía internamente a natureza de Deus e a apresentou externamente. Nesse mesmo sentido, Jesus também possuía a natureza de homem tanto interna quanto externamente. Exceto no pecado, qualquer coisa que pode ser dito acerca do homem, pode ser dito também sobre o Senhor Jesus Cristo. Jesus, assim, tornou-se semelhante ao primeiro Adão, que foi sem pecado, mas como segundo Adão, fez-se pecado por nós, para vencer o pecado e nos remir dele.

A segunda palavra é homoioma, traduzida por Paulo como “semelhança”. Se a palavra morphe refere-se à natureza do homem; a palavra homoioma fala dessa externa aparência. Jesus não tem apenas sentimentos e intelecto humanos, ele tem também a aparência humana. Ele nasceu como um bebê judeu e cresceu como os outros meninos da sua raça. Do ponto de vista físico, ele foi perfeitamente homem.

A terceira palavra é schema, traduzida por Paulo por “figura”. O pensamento aqui é de conformidade com a experiência humana. Paulo diz que Cristo não era apenas um homem internamente em seus sentimentos e emoções; não apenas um homem externamente em seu aspecto físico, mas também ele era um homem no sentido de que suportou tudo o que nós suportamos neste mundo: tentação (Hb 4.15), sofrimento (1Pe 2.21) e desapontamento (Mt 23.37). Tudo o que diz respeito à experiência humana, Jesus também vivenciou.

5. Ele se sacrificou (2.8)

Muitas pessoas estão prontas a servir outros, se isso não lhes custar nada. Mas se há um preço a pagar, então perdem o interesse. Jesus Cristo serviu sacrificialmente e foi obediente até à morte e morte de cruz. Cristo se esvaziou e se humilhou quando ele se fez homem. Depois desceu mais um degrau nessa escalada da humilhação, quando se fez servo; mas, desceu às profundezas da humilhação quando suportou a morte e morte de cruz. Por seu sacrifício, ele transformou esse horrendo patíbulo de morte no símbolo mais glorioso do cristianismo (Gl 6.14).

James Boyce diz que a cruz de Cristo é a grande ênfase de toda a Bíblia, tanto do Velho como do Novo Testamento (Lc 24.25-27). Dois quintos do Evangelho de Mateus são dedicados à última semana de Jesus em Jerusalém. Mais de três quintos do Evangelho de Marcos, um terço do Evangelho de Lucas e quase a metade do Evangelho de João dão a mesma ênfase. O apóstolo João fala da crucificação de Cristo como a “a hora” vital para a qual Cristo veio ao mundo e seu ministério foi exercido (Jo 2.4; 7.30; 8.20; 12.23; 12.27; 13.1; 17.1). O mesmo autor diz que Cristo morreu para remover o pecado (1Pe 2.24; 2Co 5.21), satisfazer a justiça divina (Rm 3.24-26) e revelar o amor de Deus (Jo 3.16; 1Jo 4.10).
A morte de cruz tinha três características:

Em primeiro lugar, ela era dolorosíssima. Era a pena de morte aplicada apenas aos escravos e delinqüentes. Havia um adágio que dizia que uma pessoa crucificada morria mil mortes. Muitas vezes, o crucificado passava vários dias pregado na cruz e morria lentamente com câimbras, asfixia e dores atrozes.

Em segundo lugar, ela era ultrajante. A pessoa condenada era açoitada, ultrajada e cuspida e, depois, tinha que carregar a cruz debaixo do escárnio da multidão até o lugar da sua execução.

Em terceiro lugar, ela era maldita. Uma pessoa que era dependurada na cruz era considerada maldita (Dt 21.23; Gl 3.13). Assim, enquanto Jesus estava pendente na cruz, embaixo Satanás e suas hostes o assaltavam; em volta os homens o escarneciam; de cima, Deus o cobria com um manto de trevas, símbolo de maldição e de dentro prorrompia o amargo grito: “Deus meu, Deus meu, por que me desamparaste?” De fato, Cristo desceu a este inferno, o inferno do Calvário. Ralph Martin diz que o Senhor da Igreja consentiu em terminar sua vida num patíbulo romano e do ponto de vista judaico, morrer sob condenação divina. Assim, Jesus nos conduz como num imenso mergulho, dos mais elevados píncaros aos mais profundos vales, da luz de Deus para a escuridão da morte.

Mas, não devemos olhar a morte de Cristo na cruz apenas sob a perspectiva do sofrimento físico. A grande questão é: por que ele morreu na cruz? Cristo não foi para a cruz porque Judas o traiu por ganância, porque os sacerdotes o entregaram por inveja ou porque Pilatos o condenou por covardia. Ele foi para a cruz porque o Pai o entregou por amor e porque ele a si mesmo se entregou por nós. Ele morreu pelos nossos pecados (1Co 15.3). Nós o crucificamos. Nós estávamos lá no Calvário não como platéia, mas como agentes da sua crucificação.

A cruz de Cristo é a maior expressão do amor de Deus por nós e a mais intensa expressão da ira de Deus sobre o pecado. O pecado é horrendo aos olhos de Deus. A santa justiça de Deus exige a punição do pecado. O salário do pecado é a morte. Então, Deus num ato incompreensível de eterno amor, puniu o nosso pecado em seu próprio Filho, para poupar-nos da morte eterna. Na cruz Jesus bebeu sozinho o cálice amargo da ira de Deus contra o pecado. Na cruz Jesus foi desamparado para sermos aceitos. Ele não desceu da cruz para podermos subir ao céu. Ele se fez maldição na cruz para sermos benditos de Deus. Ele morreu a nossa morte para vivermos a sua vida.

II. A EXALTAÇÃO DE CRISTO (2.9-11)

1. É obra de Deus (2.9)

O apóstolo Paulo faz uma transição daquilo que Cristo fez para aquilo que Deus fez para ele e por ele. O mesmo que se humilhou foi exaltado e essa exaltação lhe foi dada pelo Pai. O caminho da exaltação passa pelo vale da humilhação; a estrada para a coroação, passa pela cruz. Deus exalta aqueles que se humilham (Mt 23.13; Lc 14.11; 18.14; Tg 4.10; 1Pe 5.6). Foi por causa do sofrimento da morte que essa recompensa lhe foi dada (Hb 1.3; 2.9; 12.2), diz William Hendriksen.

Deus não deixou Cristo na sepultura, mas levantou-o da morte, levou-o de volta ao céu e o glorificou (At 2.33; Hb 1.3). Deus deu a Jesus “toda autoridade no céu e na terra” (Mt 28.18). Deu a ele autoridade para julgar (Jo 5.27) e fê-lo senhor de vivos e de mortos (Rm 14.9), fazendo-o assentar à sua destra, acima de todo principado e potestade, constituindo-o a cabeça de toda a igreja (Ef 1.20-22). Fica claro que esta elevação de Jesus não foi a restituição da natureza divina, porque ele jamais a renunciou, mas foi a restituição da glória eterna que tinha com o Pai antes que houvesse mundo, da qual voluntariamente havia se despojado (Jo 17.5,24).

Porque Jesus se humilhou, ele foi exaltado. Jesus mesmo é a suprema ilustração de sua própria afirmação: “… todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado” (Lc 18.14b). Os homens o cuspiram, mas Deus o exaltou. Os homens lhe deram nomes insultuosos, mas o Pai lhe deu o nome que está acima de todo nome.

2. É uma exaltação incomparável (2.9)

A expressão “o exaltou sobremaneira” é a tradução do verbo grego hyperhypsoun que só aparece aqui em todo o Novo Testamento e só pode ser aplicado a Cristo. O significado desse verso é “superexaltado”. Deus, o Pai enalteceu o Filho de uma forma transcendentemente gloriosa. Soergueu-o à mais elevada excelsitude. Se os salvos vão para o céu, Cristo ultrapassou os céus (Hb 4.14), foi feito mais alto que os céus (Hb 7.26) e subiu acima de todos os céus (Ef 4.10).

A exaltação incomparável de Cristo constitui-se no fato dele ter recebido um nome que está acima de todo nome (2.9). Ele recebeu este nome por herança (Hb 1.4) e por doação (2.9). O nome de Jesus, agora, é possessão da igreja. Por meio desse nome os enfermos são curados (At 3.6), os perdidos são salvos (At 4.12), os crentes são perdoados (1Jo 2.12), os cativos são libertos (Lc 10.17), as orações são respondidas (Jo 16.23). O apóstolo Paulo diz que devemos fazer tudo em nome de Jesus (Cl 3.17).

O grande título pelo qual Jesus chegou a ser conhecido na Igreja primitiva foi Kyrios. A palavra kyrios tem uma história luminosa. 1) Começou significando amo ou proprietário. 2) Chegou a ser o título oficial dos imperadores romanos. 3) Chegou a ser o título dos deuses pagãos. 4) Kyrios era o termo grego que traduzia a Jeová na versão grega das Escrituras, a Septuaginta. Desta maneira, quando Jesus era chamado Kyrios, Senhor, significava que era o Senhor e o Dono de toda vida, o Rei dos reis e Senhor de imperadores; o Senhor de uma maneira em que os deuses pagãos e os ídolos mudos jamais podiam sê-lo. Jesus era nada menos que divino.

A grande ênfase do Novo Testamento é sobre o senhorio de Cristo. O Filho de Deus é chamado de Senhor mais de seiscentas vezes no Novo Testamento. Somente os que confessam que Jesus é Senhor podem ser salvos. A Bíblia diz que quem tem o Filho tem a vida.

Podemos ilustrar esse ponto como segue:

Havia um homem muito rico que investira grande fortuna em quadros famosos. Tinha orgulho de ter uma das mais requintadas coleções dos maiores e mais consagrados pintores do mundo. Um dia seu filho único foi ferido numa viagem e morreu. Seu amigo, que o acompanhara em seus últimos suspiros, buscando consolar aquele pai aflito, enviou-lhe um quadro que ele mesmo pintara do rosto do seu filho. Ao receber o quadro, colocou-o numa bela moldura e dependurou-o junto aos seus quadros mais seletos. Ao perceber que sua morte se avizinhava, aquele homem rico chamou seu mordomo e entregou-lhe as suas últimas recomendações. Determinou que os quadros fossem leiloados e o dinheiro arrecadado deveria ser entregue a uma instituição de caridade. Em dia determinado, o leilão aconteceu. Para surpresa de todos, o mordomo começou leiloando o quadro do filho. Ninguém demonstrou interesse pelo quadro, pois ele não tinha nenhum atrativo nem valor artístico. Até que alguém resolveu fazer uma oferta e comprou o quadro. Para maior surpresa ainda, o mordomo anunciou o término do leilão. E quando, todos estavam inconformados e buscando uma explicação, o mordomo leu o testamento do seu patrão: “Aquele que comprar o quadro do filho, tem todos os outros, pois quem tem o filho tem tudo”. Podemos, de igual forma, afirmar: “Quem tem o Filho tem a vida”, quem tem Jesus tem tudo!

3. É uma exaltação que exige rendição de todos (2.10)

William Hendriksen diz que em seu regresso em glória, Jesus será adorado por toda corporação de seres morais, em todos os setores do universo. Os anjos e os seres humanos redimidos farão isso com intenso regozijo, enquanto os condenados farão isso com profunda tristeza e profundo remorso (Ap 6.12-17). Ralph Martin diz que a aclamação final do universo é, também, o “slogan” confessional da Igreja de hoje: “Jesus Cristo é Senhor”. Ambos, o universo e a Igreja unem-se num reconhecimento comum, e num tributo unânime.

Na segunda vinda de Cristo os três mundos vão se dobrar aos seus pés: os céus, a terra e o inferno. Todo o joelho vai se curvar diante do poderoso nome de Jesus no céu (os anjos e os remidos), na terra (os homens) e debaixo da terra (demônios e condenados). Com que júbilo se ajoelharão diante de Jesus aqueles que foram salvos por ele. Com que pavor cairão de joelhos aqueles que passaram orgulhosamente por ele ou o rejeitaram!

J. A. Motyer corretamente afirma que Jesus foi coroado no dia da sua ascensão. Embora o dia da sua coroação já tenha ocorrido, infelizmente poucos têm conhecimento desse fato auspicioso. Aqueles que amam a Jesus sabem disso e se regozijam nesse fato, mas milhões de pessoas no mundo não sabem que Jesus é o Rei coroado e somente se prostrarão aos seus pés quando ele se manifestar em glória. Naquele dia todo joelho vai se dobrar, toda língua vai confessar que Jesus é Senhor, mas nem todos serão salvos.

4. É uma exaltação proclamada universalmente (2.11)

Toda língua vai confessar que Jesus é Senhor. Ele é o Rei dos reis, o Senhor dos senhores, o Todo-poderoso Deus, diante de quem os poderosos deste mundo vão ter que se curvar e confessar que ele é Senhor. Aqueles que zombaram dele, vão ter que confessar que ele é o Senhor. Aqueles que o negaram e nele não quiseram crer, vão ter que admitir e confessar que ele é Senhor. Essa confissão será pública e universal. Todo o universo vai ter que se curvar diante daquele que se humilhou, mas foi exaltado sobremaneira!

Isso não significa, obviamente, que todas as pessoas serão salvas. Somente aqueles que agora reconhecem que Jesus é o Senhor o confessam como tal serão salvos (Rm 10.9). Porém, na segunda vinda de Cristo nenhuma língua ficará silenciosa, nenhum joelho ficará sem se dobrar. Toda as criaturas e toda a criação reconhecerão que Jesus é Senhor (2.11; Ap 5.13).

5. É uma exaltação que tem um propósito estabelecido (2.11)

A exaltação de Jesus tem dois propósitos claros:

Em primeiro lugar, que todos, em todos o universo reconheçam o senhorio de Jesus Cristo. Deus o exaltou, o fez assentar à sua destra e o constitui o Senhor absoluto do todo o universo. O senhorio de Cristo foi a grande ênfase da pregação apostólica (At 2.36; Rm 10.9; Ap 17.14; 19.16). Importa que todos, em todos os lugares, de todos os tempos reconheçam e confessem que Jesus é Senhor. Em virtude do poder e majestade de Jesus Cristo, e pelo reconhecimento de que ele é o Senhor, toda língua o proclamará. Pense nos termos pelos quais temos o privilégio de darmos glória a ele. Pense sobre seus nomes. Jesus Cristo é o Maravilhoso Conselheiro, o Deus Forte, o Pai da Eternidade, o Príncipe da Paz. Ele é o Messias, o Senhor, o Primeiro e o Último, o Começo e o Fim, o Alfa e o Ômega, o Ancião de Dias, o Rei dos reis e o Senhor dos senhores, o Deus conosco, Aquele que era, que é e que há de vir. Ele é chamado de a Porta das Ovelhas, o Bom Pastor, o Grande Pastor e o Supremo Pastor, o Bispo das nossas almas. Ele é o Cordeiro sem defeito e sem mácula, o Cordeiro imolado antes da fundação do mundo. Ele é a Palavra, a Luz do Mundo, a Luz da Vida, a Árvore da Vida, a Palavra da Vida, o Pão que desceu do céu, a Ressurreição e a Vida, o Caminho, a Verdade, e a Vida. Ele é o Deus Emanuel. Ele é a Rocha, o Noivo, a Sabedoria de Deus, nosso Redentor. Ele é o Cabeça de todas as coisas, o Amado em quem Deus tem todo o seu prazer. É Jesus Cristo todas essas coisas para você? Se Jesus representa todas essas gloriosas verdades para você, então, seus joelhos se dobrarão e sua língua confessará que ele é Senhor para a glória de Deus Pai.

Em segundo lugar, que o Pai seja glorificado pela exaltação do Filho. O fim último de todas as coisas é a glória de Deus (1Co 10.31). Paulo há havia advertido contra o pecado da vanglória (2.3). Toda a glória que não é dada a Deus é glória vazia, é vanglória. Cristo se humilhou e suportou a cruz para a glória de Deus (Jo 17.1). Ele ressuscitou e foi exaltado para a glória de Deus (2.11). Ralph Martin sintetiza esse glorioso pensamento de forma sublime:

O senhorio de Cristo não compete com o de Deus, nem a entronização do Filho ameaça a monarquia única do Pai. Cristo rege para a glória de Deus Pai. Sua soberania é dom do Pai (2.9). Aquilo que ele recusou-se a usurpar egoisticamente, num ato de enaltecimento próprio, destituído de sentido, aprouve ao Pai conceder-lhe, agora. A última palavra é Pai, como que para enfatizar que, agora, no Cristo pré-existente, encarnado, humilhado, exaltado, Deus e o mundo estão unidos, e um novo segmento da humanidade, um microcosmo da nova ordem de Deus para o universo, está nascendo (Ef 1.10).

CONCLUSÃO

Toda a vida e obra de Jesus não apontam para sua glória pessoal, mas objetiva a glória de Deus. Jesus atrai os homens para si para poder levá-los a Deus. Na igreja de Filipos havia alguns que tinham o propósito de satisfazer suas ambições egoístas. Porém, o único propósito de Jesus era servir a outros ainda que isso tenha lhe custado a maior de todas as renúncias. Enquanto alguns membros da igreja de Filipos queriam ser o centro das atenções, Jesus queria que o único centro da atenção fosse Deus. Assim, também, o seguidor de Cristo nunca deve pensar em si mesmo, senão nos demais; não deve buscar sua própria glória, senão a glória de Deus.

Rev. Hernandes Dias Lopes

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