A igreja sob ataque

INTRODUÇÃO

A vida cristã é um campo de batalha e não um parque de diversões. É luta renhida, combate sem trégua. Nesse campo não há ninguém neutro. Somos guerreiros ou vítimas. Usamos a armadura de Deus, ou então, estaremos vulneráveis numa arena de morte.

O apóstolo Paulo depois de tratar da apostasia final e do aparecimento do homem da iniqüidade, retratando com cores vivas a perseguição brutal que assolará a igreja no tempo do fim, ainda precisa alertar a igreja sobre o fato de que ela está sob ataque externo e interno.

1. A igreja sob ataque externo (3.2,3)

O ataque externo à igreja vem de duas fontes específicas:

Em primeiro lugar, os homens maus (3.2). O diabo tem não apenas o homem da iniqüidade como seu agente, mas também homens maus e perversos como seus asseclas. Esses homens maus são opositores hostis e declarados do evangelho. Perseguem os pregadores e tentam desacreditar a pregação.

Em segundo lugar, o Maligno (3.3). O Maligno é o patrono maior dos oponentes de Deus. Ele se chama Satanás porque se opõe a Deus, sua igreja e sua obra. Ele se chama diabo porque é acusador. Ele se chama Maligno porque todas as suas obras são más. Ele se chama Antiga Serpente porque é venenoso e enganador. Ele se chama Dragão porque é devorador. Ele é ladrão, assassino e mentiroso. Ele usa suas armas, seus estratagemas e seus agentes para atacar a igreja.

2. A igreja sob ataque interno (3.6,11)

A igreja não enfrenta apenas ataques de fora para dentro, mas também lutas e conflitos internos. Na igreja de Tessalônica havia irmãos vivendo desordenamente (3.6,11).

Quando Paulo escreveu sua primeira carta à igreja de Tessalônica advertiu os crentes ociosos e bisbilhoteiros que eles deveriam trabalhar (1Ts 4.11). Aconselhou os líderes da igreja a admoestar esses insubmissos (1Ts 5.14). Esses rebeldes, porém, não se arrependeram uma vez que Paulo precisou dedicar o restante de sua segunda carta com o mesmo problema.

O que gerou esse problema moral dentro da igreja? Uma visão distorcida da teologia. Doutrina errada desemboca em vida errada. Alguns crentes haviam interpretado incorretamente os ensinamentos de Paulo acerca da segunda vinda de Cristo. Por acreditarem que a volta de Cristo seria avassaladoramente iminente deixaram de trabalhar e passaram a viver à custa da generosidade da igreja. Warren Wiersbe diz que esses crentes imaturos e enganados permaneciam ociosos, enquanto outros trabalhavam, e, ainda, esperavam que a igreja os sustentasse. Além de não trabalhar, eles espalhavam fofocas sobre outros membros da igreja. Enquanto as mãos permaneciam ociosas, a língua ocupava-se fofocando.1

Três grandes verdades são destacas pelo apóstolo Paulo neste capítulo em apreço.

I. A HUMILDADE DO APÓSTOLO EM PEDIR ORAÇÃO (3.1,2)

Paulo é um homem de oração, que suplica a Deus sem cessar pela igreja e também roga à igreja continuamente que ore em seu favor (1Ts 5.25; Rm 15.30-32; 2Co 1.11; Fp 1.19; Cl 4.2; Fm 22). Paulo mesmo sendo o maior teólogo do cristianismo, o maior evangelista e o maior plantador de igrejas, jamais perdeu o senso de sua total dependência de Deus. Ele tinha luz na mente e fogo no coração. Ele tinha teologia e piedade. Ele tinha se consagrado à oração e à Palavra. Ele acredita que Deus responde as orações e que o Eterno intervém na História por intermédio das súplicas do seu povo. Hoje, temos gigantes no púlpito, mas pigmeus na oração. Temos homens que têm conhecimento, mas não unção; homens que têm a mente cheia de luz, mas o coração vazio de calor. Hoje temos homens que têm fome de livro, mas não fome de Deus. Esse divórcio entre Palavra e oração é, hoje, um dos mais graves problemas da igreja contemporânea.

Quais assuntos levam o veterano apóstolo a pedir orações da igreja? Prosperidade? Cura? Sucesso? Não! O coração do apóstolo arde pela proclamação do evangelho. É nessa direção que estão sua mente, seu coração, e seus projetos. Paulo pede oração à igreja por dois motivos:

1. Ele pede oração pelo sucesso na evangelização (3.1)

O apóstolo Paulo pede oração à igreja pelo êxito da pregação em Corinto, onde estava, quando escreveu esta carta, assim como a Palavra estava se espalhando em Tessalônica (1Ts 1.8,9). Houve momentos de tanta angústia para Paulo em Corinto que o próprio Deus lhe apareceu numa visão, dizendo: “Não temas, pelo contrário, fala e não te cales; porquanto eu estou contigo, e ninguém ousará fazer-te mal, pois tenho muito povo nesta cidade” (At 18.9,10).

Paulo pede oração por duas coisas em relação à evangelização:

Em primeiro lugar, para que a Palavra pudesse correr velozmente (3.1). A palavra grega treche usada por Paulo para “propagar” significar correr como um atleta num estádio (1Co 9.24). A palavra era usada na Septuaginta acerca da corrida de um guerreiro na batalha. Paulo usa a palavra aqui para expressar sua preocupação dominante pelo livre curso do evangelho. O que está na mente de Paulo é o rápido progresso do evangelho.2 Nessa mesma linha de pensamento Howard Marshall diz que a idéia é da propagação rápida e vitoriosa do evangelho.3 Ele pede oração para que a Palavra de Deus tenha asas e alcance mais rapidamente horizontes mais largos. Os servos de Deus podem estar presos, mas a Palavra de Deus jamais fica algemada. Ninguém consegue conter a Palavra de Deus (2Tm 2.9). Uma vez semeada, ela jamais volta para Deus vazia (Is 55.11).

Em segundo lugar, para que a Palavra pudesse ser glorificada (3.1). A Palavra é glorificada quando ela é pregada com fidelidade e poder, quando ela é acolhida com fé e humildade e quando ela frutifica abundantemente para a glória de Deus. Ela é glorificada na vida do mensageiro e na vida do ouvinte. Fritz Rienecker diz que o curso triunfante do evangelho traz glória a Deus, e em seu sucesso sua glória é vista porque é Deus quem espalha o evangelho e lhe dá sucesso e glória.4 A Palavra de Deus é glorificada tanto na vida dos que a compartilham como dos que a recebem. Foi o que Paulo experimentou em Antioquia da Pisídia: “Os gentios, ouvindo isto, regozijavam-se e glorificavam a Palavra do Senhor, e creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna. E divulga-se a Palavra do Senhor por todas aquela região” (At 13.48,49). Concordo com Warren Wiersbe quando ele disse: “Quando a Palavra de Deus realiza a obra, Deus recebe a glória”.5

2. Ele pede oração por proteção espiritual (3.2)

Paulo tem discernimento espiritual para saber que o Maligno tem seus agentes de plantão, réprobos quanto à fé, homens perversos e maus, que articulam planos para obstruir a obra e atormentar os obreiros. O apóstolo é enfático ao afirmar que a fé não é de todos (3.2), mas dos eleitos (Tt 1.1). O trabalho cristão é combate sem intermitência. Jerônimo Savonarola uma vez disse: “Se não há inimigo, não há luta; se não há luta, não há vitória; se não há vitória, não há coroa”.6

Paulo não combate esses homens maus com armas carnais. Ele compreende que essa era uma batalha espiritual e por isso, pede orações à igreja por livramento. Vejamos o pedido de Paulo: “E para que sejamos livres dos homens perversos e maus; porque a fé não é de todos” (3.2). Aqueles indivíduos tinham desígnios malignos, intuitos maliciosos, e espíritos assassinos e Paulo estava sob constante ameaça, diz Norman Champlin.7

Paulo descreve esses homens de duas maneiras:

Em primeiro lugar, eles são perversos (3.2). A palavra grega atopos é usada somente aqui em todo o grego bíblico. Essa palavra significa “fora de lugar”, “pervertido”.8 A palavra foi usada nos papiros para descrever aqueles que tinham despedaçado as hastes de trigo de um fazendeiro e as lançado aos porcos.9 Esses homens perversos farão tudo para distorcer a mensagem, perverter os valores e atacar os obreiros de Deus.

Em segundo lugar, eles são maus (3.2). A palavra grega poneros, significa “iníquos”, “mal intencionados”. É a mesma palavra usada para descrever o Maligno (3.3). Esses homens são imitadores do demônio, eles têm o mesmo caráter maligno e as mesmas intenções perversas.

II. A FIDELIDADE DE DEUS EM PROTEGER O SEU POVO (3.3-5)

A igreja está sob ataque, mas Deus a cobre debaixo de suas asas. A igreja é perseguida, mas Deus é a sua cidade refúgio. A igreja é o alvo do ódio consumado do Maligno, mas Deus é fiel para guardá-la de todo perigo.

Três verdades podem ser aqui destacadas:

1. A fidelidade de Deus é o escudo protetor contra o Maligno (3.3)

O Maligno é um anjo caído. Ele é pervertido em seu caráter, astucioso em suas ciladas, e avassalador em suas ações, mas a igreja está guardada e é protegida pela fidelidade de Deus. Aqueles que foram eleitos por Deus e selados pelo Espírito não podem ser tocados por Satanás. Aqueles cujos nomes estão no livro da vida não podem ser marcados pela besta. Morremos com Cristo. Ressuscitamos com ele e com ele estamos assentados nas regiões celestes, acima de todo principado e potestade. Estamos escondidos com Cristo em Deus e seguros nas mãos de Jesus, de onde ninguém pode nos arrebatar.

Deus é fiel a ele mesmo, aos seus atributos, à sua Palavra, às suas promessas, bem como aos seus juízos. Sua fidelidade é o nosso escudo protetor contra o Maligno. O Senhor “os fortalecerá e os guardará” (3.3). Esse “guardar” impedirá os crentes tessalonicenses de caírem nas malhas do Maligno, tais como o fanatismo, a ociosidade, a intromissão, a negligência dos deveres, e o derrotismo (3.5-8).10

2. A obediência da igreja traz-lhe segurança no meio das lutas (3.4)

O apóstolo se volta do Senhor para a igreja e diz que tem confiança nos crentes porque eles estão praticando a Palavra de Deus e estão com disposição de continuar a caminhada na estrada da obediência. Diz o apóstolo: “Nós também temos confiança em vós no Senhor, de que não só estais praticando as cousas que vos ordenamos, como também continuareis a fazê-las” (3.4). A palavra grega paraggello refere-se a “uma ordem militar transmitida por um oficial superior”.11 Os crentes estavam se submetendo às ordens de Deus dadas à igreja por intermédio de Paulo.

O perigo que a igreja enfrenta não é a presença nem a ameaça do inimigo, mas a ausência de Deus e a desobediência à sua Palavra. Sempre que uma igreja trilha pelas veredas da obediência, ela caminha em triunfo, ainda que pobre ou perseguida. A igreja de Esmirna era pobre e perseguida, mas Jesus disse que ela era rica. Os homens podiam até matar os seus fiéis, mas jamais derrotá-los. Os filhos de Deus ainda selem seu testemunho com sangue são mais do que vencedores!

3. É Deus mesmo que conduz à igreja vitoriosamente no meio das provas (3.5)

O apóstolo Paulo diz: “Ora, o Senhor conduzia o vosso coração ao amor de Deus e à constância de Cristo” (3.5). Toda a obra da salvação é planejada, aplicada e consumada por Deus. É ele mesmo quem nos chama e nos conduz não para fora e além dele, mas para o seu próprio amor. É ele mesmo quem nos conduz a enfrentarmos vitoriosamente as lutas por causa de Cristo.

William Hendriksen diz que a palavra grega hupomone traduzida por “constância” fala daquela paciência ou graça para suportar o peso. Equivale à firmeza, não importando qual seja o custo. Em quase todos os casos em que Paulo emprega a palavra hupomone, ele também usa alguma outra palavra que indica a hostilidade dirigida contra Cristo e seus seguidores, ou as provações e dificuldades que os mesmos têm que suportar, como por exemplo.

1) Romanos 5.3-5: perseverança em meio à tribulação

2) Romanos 15.4,5: perseverança em meio ao vitupério

3) 2Coríntios 1.6: perseverança em meio ao sofrimento

4) 2Coríntios 6.4: perseverança em meio à aflição

5) 2Coríntios 12.12: perseverança em meio à perseguição, à angústia.12

III. A DISCIPLINA NA IGREJA, UMA MEDIDA TERAPÊUTICA (3.6-15)

A disciplina é um ato responsável de amor. Segundo o reformador João Calvino, ela é uma das marcas da igreja verdadeira. A disciplina é terapêutica e visa a proteção da igreja e a restauração do faltoso.

O apóstolo Paulo destaca três verdades solenes aqui:

1. A descrição dos faltosos (3.6,10,11)

Alguns crentes de Tessalônica permaneceram no erro, mesmo depois de exortados. Como a igreja deveria tratar essas pessoas? Ignorá-las? Deixá-las como fermento no meio da massa, levedando os demais? Expulsá-las da igreja como inimigos? Não! Paulo orienta a igreja a lidar com essas pessoas de maneira firme, mas amorosa. Vamos ver, então, qual a descrição que o apóstolo Paulo faz desses faltosos.

Em primeiro lugar, eles estavam vivendo de forma desordenada (3.6,11). Alguns crentes de Tessalônica por abraçarem uma teologia errada estavam vivendo uma vida errada e por acreditarem que a vinda de Cristo seria imediata deixaram de trabalhar e começaram a viver às custas dos demais. Além de serem parasitas e sanguessugas usaram o tempo de folga para se intrometer na vida alheia. A palavra grega usada por Paulo é ataktos que significa estar fora da fila, estar fora de ordem, ser desordeiro, preguiçoso.13 Os judeus honravam o trabalho honesto e exigiam que todos os rabinos soubessem um ofício. Os gregos, por outro lado, desprezavam o trabalho manual e o deixavam ao encargo de seus escravos. Essa influência grega, somada às idéias equivocadas acerca da doutrina sobre a volta de Cristo levaram alguns crentes tessalonicenses a um modo de vida indigno de um cristão.14

Em segundo lugar, eles estavam rendidos à preguiça (3.10,11). Alguns crentes começaram a adotar a vadiagem em vez de diligência no trabalho. Deixaram de trabalhar e queriam ser sustentados pelos demais irmãos. A preguiça é um pecado. Deus criou o homem para o trabalho. O trabalho dignifica e honra o ser humano. É bem conhecida a expressão usada por Benjamim Franklin: “A preguiça caminha tão lentamente que a pobreza não demora a alcançá-la”. O rei Salomão adverte: “Vai ter com a formiga, ó preguiçoso, considera os seus caminhos e sê sábio” (Pv 6.6). Russell Norman Champlin citando Robertson diz que aqueles parasitas eram piedosos demais para trabalhar; mas estavam perfeitamente dispostos a comer às custas de seus vizinhos, enquanto passavam o seu tempo na indolência.15 Os romanos diziam: “Quem não aprende a fazer coisa alguma aprender a fazer o mal”. Isaac Watts escreveu: “Satanás sempre encontra algum mal a ser feito por mãos desocupadas”. Os rabinos diziam: “Aquele que não ensina o filho a trabalhar, ensina-o a roubar”.

Em terceiro lugar, eles estavam se envolvendo com fofocas (3.11b). Paulo diz que além de não trabalharem; esses crentes ainda estavam se intrometendo na vida alheia. Em vez de se tornarem trabalhadores ativos, tornaram-se intrometidos ativos. Eles não eram ativos em algo proveitoso, mas ativos em tratar da vida alheia.16 Eles se tornaram bisbilhoteiros, farejadores da vida alheia. Devemos nos ocupar dos nossos próprios pecados em vez de ficarmos espalhando boatarias. A maneira mais vergonhosa de nos exaltarmos é criticar as outras pessoas.

2. Como a igreja deve lidar com os faltosos (6,14,15)

A disciplina não é um ato isolado da liderança da igreja, mas uma medida tomada por toda a comunidade. Warren Wiersbe cita seis diferentes situações que exigem disciplina na igreja: 1) Diferenças pessoais entre cristãos (Mt 18.15-17). Nesse caso devemos procurar essa pessoa para uma conversa particular e tentar resolver a questão. Somente se a pessoa se recusar a coloca as coisas em ordem é que devemos tratar do assunto com mais alguém; 2) Erro doutrinário. Esse erro pode ser por falta de conhecimento da Palavra. Nesse caso, devemos ensinar-lhe com paciência (2Tm 2.23-26). Se persistir, deve ser repreendido (Tt 1.10-14). Se continuar no erro, deve-se evitar a pessoa (Rm 16.17,18) e, por fim, é preciso separar-se dela (2Tm 2.18-26; 2Jo 9); 3) Um cristão que caiu em pecado (Gl 6.1-3). Aquele que é surpreendido no pecado deve ser corrido com espírito de brandura a fim de ser restaurado; 4) Um desordeiro contumaz (Tt 3.10,11). Trata-se daquela pessoa facciosa que toma partido dentro da igreja para provocar divisão. Caso essa pessoa seja corrigida duas vezes e mesmo assim não der prova de arrependimento, Paulo recomenda a exclusão; 5) A imoralidade flagrante (1Co 5.1-7). A igreja deve lamentar profundamente essa situação e procurar levar o faltoso ao arrependimento. Se ele recusar, a congregação deve coletivamente excluí-lo de seu meio (1Co 5.13). Se ele se arrepender, deve ser perdoado e restaurado à comunhão na igreja (2Co 2.6-11); 6) O caso de cristãos preguiçosos e bisbilhoteiros (3.6-15). Paulo diz aos membros da igreja para exortá-los e, se não se arrependerem, para evitar a comunhão íntima com eles.17

Três ações são oferecidas pelo apóstolo Paulo no trato deste último caso, que é o nosso assunto em tela:

Em primeiro lugar, uma ação coletiva de afastamento do faltoso (3.6). Paulo diz: “Nós vos ordenamos, irmãos, em nome do Senhor Jesus Cristo, que vos aparteis de todo irmão que ande desordenadamente e não, segundo a tradição que de nós recebestes” (3.6). O apelo de Paulo aos crentes é veemente acerca do distanciamento que devem manter daqueles que vivem deliberadamente na prática do pecado. William Hendriksen diz que quando a admoestação não alcança êxito, deve-se recorrer à segregação, ao menos até certo ponto. Não se trata de um completo ostracismo, mas a igreja não deve ter com ele companheirismo, concordando com suas atitudes e mau testemunho.18 É preciso deixar claro que esses faltosos não eram ignorantes, mas rebeldes. Eles estavam vivendo desordenamente por conveniência e rebeldia aos ensinamentos já recebidos. Eles estavam vivendo fora do caminho não por falta de luz, mas por se recusarem a obedecer.

Em segundo lugar, uma desaprovação coletiva do erro do faltoso (3.14). Paulo agora dá mais um passo e levanta a possibilidade daqueles que já haviam desobedecido às orientações da primeira carta continuarem na prática do erro mesmo depois da leitura desta segunda carta. Nesse caso, essas pessoas tornar-se-iam contumazes na prática do erro e deveriam ser notadas pelos membros da igreja. Os crentes, então, recebem a orientação de não se associarem a esses rebeldes recalcitrantes a fim de ficarem envergonhados.

Em terceiro lugar, uma advertência firme, mas amorosa (3.15). É digno de nota que em momento algum Paulo se referiu a esses rebeldes como joio, como lobos, como inimigos, ou como filhos do maligno. Ele os descreveu como “irmãos”. Por isso, deveriam ser disciplinados. A disciplina é para os filhos. Deus disciplina aqueles a quem ele ama. Paulo exorta a igreja a não tratar os faltosos como inimigos, mas como a irmãos. Diz o apóstolo: “Todavia, não o considereis por inimigo, mas adverti-o como irmão” (3.15). Na disciplina precisamos ter cuidado para não esmagarmos a cana quebrada nem apagarmos a torcida que fumega. William Barclay diz que a disciplina cristã deve ser administrada de irmão para irmão.19 William Hendriksen diz que o apóstolo Paulo ainda considera esses faltosos como irmãos, ainda que irmão em erro. Por isso, seu propósito é conduzir essas pessoas ao arrependimento e não destruí-las.20

3. Como agir preventivamente para que não haja esses escândalos na igreja (6-14)

A prevenção é sempre melhor e mais suave do que a intervenção. Paulo nos aponta quatro formas de evitarmos os problemas na igreja.

Em primeiro lugar, devemos andar segundo a Palavra (3.6,14). No versículo 6 o apóstolo Paulo fala de uma ordem dada à igreja. Essa palavra refere-se a uma “ordem militar transmitida por um oficial superior”. Assim, Paulo vê a igreja como um exército, e não pode haver ordem em um exército insubordinado.21 Também nesse mesmo versículo Paulo fala da “tradição” que os crentes tessalonicenses receberam. Essa tradição é uma referência à mensagem escrita e falada pelo apóstolo e seus companheiros Silas e Timóteo dada à igreja. Howard Marshall nessa mesma linha diz que a tradição diz respeito ao ensino doutrinário, tanto oral quanto escrito. Aqui, o pensamento diz respeito ao ensino acerca do comportamento cristão, transmitido oralmente (3.10) e por escrito (1Ts 4.11,12), como também pelo exemplo de Paulo.22 Já no versículo 14, Paulo faz referência especificamente à sua segunda carta à igreja, a mesma carta que estamos considerando. A Palavra de Deus deve ser a nossa única regra de fé e prática. A Palavra é a verdade e é ela mesma que testifica de Cristo. Ela é espírito e vida. Ela é mais preciosa do que ouro depurado e mais doce do que o mel e o destilar dos favos. Não há revelação de Deus fora da Palavra. A Palavra é inerrante, infalível e suficiente. Qualquer outra revelação forânea à Escritura deve ser anátema (Gl 1.6-9). A igreja não é guiada por tradições humanas, dogmas produzidos pelos concílios das igrejas ou mesmo por sonhos, visões e revelações sensacionalistas. Deus se revelou e sua revelação está escrita na Palavra e fora dela não podemos conhecer a vontade de Deus.

Em segundo lugar, devemos seguir os bons exemplos (3.7-9). Para corrigir o desvio dos irmãos preguiçosos e bisbilhoteiros, o apóstolo Paulo cita o seu próprio exemplo, mostrando que ele, mesmo tendo o direito de receber sustento da igreja (1Co 9.6-14), trabalhou com suas próprias mãos para prover seu sustento, a fim de deixar para eles o exemplo. Todo obreiro cristão tem o direito de receber sustento da igreja onde serve ao Senhor (Lc 10.7; Gl 6.6; 1Tm 5.17,18). Conseqüentemente, não devemos usar o exemplo de Paulo como desculpa para não sustentar os servos de Deus (2Co 11.8,9; 12.13). O líder espiritual, porém, está a serviço do rebanho em vez de ser servido por ele. Ele deve ser pastor do rebanho e não explorador dele. Paulo não fez do ministério uma plataforma para se enriquecer. Ele não mercadejava o evangelho (2Co 2.17). Hoje, muitos pregadores transformam a igreja numa empresa particular, o evangelho num produto, o púlpito num balcão, o templo numa praça de negócios e usam os crentes como consumidores. Warren Wiersbe diz que líderes egoístas usam as pessoas para garantir o próprio sustento e estão sempre exigindo seus direitos; um líder verdadeiramente dedicado usa seus direitos para edificar as pessoas e coloca seus privilégios de lado por amor aos outros.23

Em terceiro lugar, devemos nos dedicar zelosamente ao trabalho (3.10,12). O trabalho não é conseqüência do pecado. Adão e Eva trabalharam antes da Queda e nós iremos trabalhar mesmo depois que recebermos um corpo de glória no céu. O trabalho é bênção e não maldição. Em vez de vivermos desordenamente, bisbilhotando a vida alheia, devemos trabalhar tranqüilamente. Em vez de vivermos às custas dos outros, devemos ganhar o nosso próprio pão, pois o axioma universal é este: “Se alguém não quer trabalhar, também não coma” (3.10b). Certamente este texto não se aplica aos infantes que ainda não podem trabalhar nem aos doentes e incapacitados.

Em quarto lugar, devemos continuar fazendo o bem em toda e qualquer circunstância (3.13). O mau exemplo dos insubordinados; a exploração dos que vivem desordenamente; a boataria dos que vivem se intrometendo na vida alheia não devem nos desencorajar na prática do bem. Alguns crentes de Tessalônica estavam recuando na prática do bem por causa do mau testemunho dos crentes desobedientes. Warren Wiersbe diz que os cristãos fiéis estavam desanimados com a conduta desses convertidos negligentes que se recusavam a trabalhar. Seu argumento era: “Se eles não precisam trabalhar, então por que nós precisamos?” É como se Paulo estivesse dizendo: “Vocês não devem exasperar-se tanto pela conduta lamentável de uns poucos ociosos, que se sintam cansados de exercer a caridade para com os que são realmente necessitados”. Ou ainda como se afirmasse: “Não se enganem. Não deixem que umas poucas pessoas, as quais negligenciam seus deveres, lhes impeçam de fazerem os seus. Nunca se cansem de fazer o que é justo, nobre e excelente”.24

O pecado na vida de um cristão sempre afeta toda a igreja. O péssimo testemunho de alguns cristãos pode abalar a devoção e obstruir o serviço do restante da congregação.25

Paulo os exorta a não se cansarem de fazer o bem. A palavra grega kalopoieo significa fazer não apenas o que é direito, mas também o que é belo. Há obras que são moralmente boas, mas não são necessariamente belas.

CONCLUSÃO

O apóstolo Paulo conclui esta carta, falando sobre três preciosas possessões da igreja:

1. A paz (3.16)

Jesus é o Senhor da paz. Ele é a nossa paz. Ele nos dá a paz e essa paz o mundo não pode dar nem tirar. Essa paz guarda o nosso coração e a nossa mente de qualquer ansiedade. Essa paz excede todo o entendimento. Essa paz reina em todas as circunstâncias.

2. A comunhão (3.16b)

Depois de falar que Jesus é o Senhor da paz. Depois de mencionar que Jesus nos concede continuamente sua paz em todas as circunstâncias, agora, Paulo fala da comunhão que temos com ele. Temos não apenas a paz de Cristo em nós, mas o Senhor da paz conosco (Fp 4.9). Não importa se passamos por lutas, vales e aflições, o Senhor da paz está conosco. Ele jamais nos abandona nem em circunstância alguma nos desampara. Nossa comunhão com ele é plena, abundante e eterna.

3. A graça (3.18)

A graça de Cristo é o seu favor imenso dispensado àqueles que não o merecem. Por sua graça somos salvos. Por sua graça temos livre acesso a Deus. Por sua graça entramos na cidade pela porta. Pela sua graça somos feitos filhos e herdeiros de Deus. Pela sua graça triunfamos e chegamos na glória!

Rev. Hernandes Dias Lopes

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