O homem, seu tempo e sua mensagem

INTRODUÇÃO

Isaltino Gomes Coelho Filho diz que Jonas foi o mais estranho de todos os profetas. Porém, sua mensagem produziu efeitos até naqueles que não o ouviram diretamente. Nenhum outro pregador foi tão bem sucedido. Nem mesmo Jesus, pois muitos se opuseram à sua pregação. No hebraico, o sermão de Jonas se compunha de apenas cinco palavras, nada mais. E que impacto!1

Page Kelley chega a ponto de afirmar que Jonas fez todo o possível para que sua missão fracassasse. Um espírito indignado, um preparo insatisfatório, um sermão medíocre. Resultado: um sucesso tremendo! A maioria dos pregadores trabalha duramente para obter bons resultados; Jonas trabalhou durante para não ter bons resultados, mas ele teve sucesso, apesar da sua atitude.2 Jonas foi o único pregador da história que ficou frustrado com o seu sucesso.

Alguns estudiosos, dando rédeas à sua imaginação fazem do grande peixe que engoliu Jonas o centro deste livro. Mas, o peixe não é o personagem principal do livro, nem mesmo Jonas; Deus é. Deus é o Senhor não apenas de Israel, mas da natureza, da História e de todas as nações. Sua vontade se cumpre, sempre, no final. Os homens não podem criar-lhe obstáculos nem frustrá-lo. Sua graça é para todo o mundo.3 O peixe só é citado duas vezes no livro enquanto Deus é quem ordena a Jonas a ir a Nínive. Deus é quem manda uma tempestade atrás de Jonas. Deus é quem manda o peixe engolir Jonas e depois vomitá-lo. Deus é quem novamente comissiona Jonas a pregar em Nínive. Deus é quem perdoa os habitantes de Nínive e exorta o profeta emburrado. Nessa mesma linha de pensamento Vincent Mora diz: “Este peixe, que foi obsessão para a imaginação judaica e cristã não é o centro da narrativa. Não passa do instrumento providencial que traz Jonas de volta a seu ponto de partida”.4

Vamos destacar alguns pontos importantes na introdução deste precioso livro:

I. O AUTOR DO LIVRO DE JONAS

Os teólogos liberais afirmam que Jonas é o último dos livros proféticos do Antigo Testamento, escrito no século III a.C., por algum autor anônimo. Para esses teólogos Jonas é uma novela religiosa com o propósito de ensinar lições morais e espirituais, mas sem nenhum traço de historicidade.1 Os liberais não crêem que Jonas existiu como um personagem histórico.

Nada obstante ao que pensam e escrevem os liberais, a Bíblia fala que Jonas era profeta, filho de Amitai (1.1) e morava na cidade de Gate-Hefer, na tribo de Zebulom, no norte de Israel, a sete quilômetros de Nazaré (2Rs 14.25). Jonas era Galileu e contemporâneo dos profetas Amós e Oséias.

O nome Jonas “Yonah” no Hebraico significa “pomba”. Mas a vida de Jonas nega seu nome. Como disse Dionísio Pape, “Gavião teria sido mais apropriado”.2 Longe de ser um homem pacífico, está em guerra com Deus e com as pessoas. É um pregador que deseja ver a morte e a destruição dos seus ouvintes e não a salvação deles. Isaltino Filho diz que Jonas demonstra em seu temperamento ser um homem emburrado, sem misericórdia, e mal-relacionado com o próprio Deus.3

Jonas profetizou a prosperidade do Reino do Norte no reinado de Jeroboão II (793-753). Naquele tempo os ricos estavam ficando muito ricos às custas do empobrecimento da maioria (2Rs 15.20). Paradoxalmente, esse foi um tempo de grande expansão militar (2Rs 14.25,28). É bem provável que Jonas nesse tempo tenha se tornado num profeta ideologizado. Ele tinha consciência, por exemplo, de que nos seus dias a grande ameaça para Israel era a Assíria, cuja capital era Nínive (2Rs 15.19). Esse é o pano de fundo que revela o sentimento de Jonas e as suas motivações para fugir da missão em vez de cumpri-la. Conforme Jerónimo Pott disse, Jonas deseja ver a total destruição de Nínive, a capital da Assíria, e não a sua salvação.4 George Robinson diz que sendo Jonas um nacionalista extremado, mesquinho, e vingativo não podia entender porque Deus desejaria que ele pregasse a um povo que queria devorar a Israel.5

II. O TEMPO EM QUE O PROFETA JONAS VIVEU

Alguns teólogos liberais rejeitam a tese de que Jonas profetizou no oitavo século antes de Cristo. Eles colocam Jonas bem mais tarde, como um personagem que profetizou no terceiro século. Buscando evidências internas no livro para ampararem suas teses, esquecem-se de que o texto bíblico (2Rs 14.25) circunscreve o ministério de Jonas num tempo determinado, ou seja, o oitavo século a.C.

O nome do profeta Jonas só é citado no Antigo Testamento fora do seu próprio livro mais uma vez. Esse relato está em 2Reis 14.23-25, como segue:

No décimo quinto ano de Amazias, filho de Joás, rei de Judá, começou a reinar em Samaria Jeroboão, filho de Jeoás, rei de Israel; e reinou quarenta e um anos. Fez o que era mau perante o Senhor; jamais se apartou de nenhum dos pecados de Jeroboão, filho de Nebate, que fez pecar a Israel. Restabeleceu ele os limites de Israel, desde a entrada de Hamate até ao mar da Planície, segundo a palavra do Senhor, Deus de Israel, a qual falara por intermédio de seu servo Jonas, filho de Amitai, o profeta, o qual era de Gate-Hefer.

Concluímos que ele profetizou durante o reinado de Jeroboão II, quando esse monarca ilustre governou em Samaria quarenta e um anos, num tempo de prosperidade financeira, conquistas militares e paz nas fronteiras. Gleason Archer diz que Jonas deve ter iniciado o seu ministério profético antes do reinado de Jeroboão II ou pelo menos antes deste brilhante rei ter conseguido alguns dos seus triunfos militares mais marcantes.6 Nesse mesmo tempo a nação também se entregou à opressão econômica, aos desmandos legais, ao descalabro moral e à apostasia religiosa. Foi nesse tempo que Amós denunciou a ganância insaciável dos poderosos, a mancomunação dos juízes com os ricos para oprimirem os pobres, a corrupção moral e o desaparecimento da piedade em virtude de uma religião sem ortodoxia e sem vida.

III. UM LIVRO SOB ATAQUE

O livro de Jonas, semelhantemente ao livro de Gênesis, é o livro da Bíblia mais atacado pelos teólogos liberais. Esses estudiosos do alto de sua pretensa sapiência negam a historicidade do livro ou tentam colocá-lo no período pós-exílico. Desmond Alexander, entretanto, afirma: “Não há motivo algum por que a data da composição do livro de Jonas deva estar na era pós-exílica”.7

J. Vernon McGee diz que Jonas foi talvez criticado mais do que qualquer outro livro da Bíblia.8 Charles Feinberg nessa mesma trilha de pensamento afirma que a descrença tem atacado esse livro talvez mais do que qualquer outro. Jonas tem sido alvo de humor irrefletido e zombaria imerecida.9 Os críticos têm tentado desacreditar sua inspiração. Os teólogos liberais arvoraram-se como juízes da verdade e assacam contra este texto bíblico as mais ferinas críticas. Alguns chegam até mesmo a chamarem o livro de Jonas de “o calcanhar de Aquiles da Bíblia”.10

A razão principal para a rejeição do livro é porque esses arautos da incredulidade não aceitam a historicidade dos milagres. Se os milagres não existem, logo Jonas não existiu e sua profecia não deve ser considerada como um fato histórico. Charles Feinberg comenta:

A zombaria tem-se concentrado especialmente em torno do fato de Jonas ter sido engolido pelo peixe e sobrevivido. A raiz da dificuldade é a negação do miraculoso. Se, porém, excluirmos o miraculoso da Bíblia, o que nos restará? E mais importante, que tipo de Deus nos sobra? Trata-se de nada menos do que incredulidade míope pensar que se soluciona a dificuldade com a remoção desse milagre do livro de Jonas.11

Na verdade, o livro inteiro está cheio de milagres e não apenas o fato de Jonas ter sido engolido por um grande peixe e sobrevivido. Foi Deus quem mandou uma tempestade atrás de Jonas. Foi Deus quem acalmou o mar quando Jonas foi lançado para fora do barco. Foi Deus quem deu ordem a um peixe e este engoliu Jonas. Foi Deus quem preservou Jonas três dias no ventre do peixe. Foi Deus quem deu ordens ao peixe para vomitar Jonas. Foi Deus quem produziu o quebrantamento no povo ninivita e ao mesmo tempo quem lhe ofereceu graça e misericórdia. Foi Deus quem fez brotar uma planta para trazer sombra e alento ao profeta e também foi Deus quem fez a planta secar. Se tirarmos os milagres da Bíblia, ela deixa de ser a Palavra de Deus!

Fato digno de nota são os registros oficiais do almirantado Britânico que fornecem evidências documentadas sobre a espantosa aventura de James Bartley, um marinheiro britânico que foi engolido por uma baleia e escapou com vida para contar a história. Muitos médicos de vários países vieram examiná-lo. Viveu mais dezoito anos depois dessa experiência. Na lápide de seu túmulo foi escrito um breve relato de sua experiência, com o acréscimo: “James Bartley, um moderno Jonas”.12 Essas informações, segundo Champlin foram extraídas do livro Stranger than Science, escrito por Frank Edwards, p. 11-13.

Os críticos rejeitam a veracidade e a historicidade de Jonas dizendo que o livro é apenas uma lenda ou uma parábola. Mas, o nome do profeta Jonas está vinculado a um fato histórico comprovado (2Rs 14.25). Se Jonas é um personagem mitológico, então, Jeroboão II também o foi. Mas, assim como Jeroboão II foi uma pessoa real, Israel foi uma nação real, Hamate foi um local real, Jonas também foi uma pessoa real.

Mais do que isso, se Jonas não é um personagem histórico, então, Jesus Cristo enganou-se e faltou com a verdade quando fez menção a ele como um profeta. É impossível negar a historicidade de Jonas e ao mesmo tempo afirmar a credibilidade do Senhor Jesus, diz J. Vernon McGee.13 Nessa mesma linha de pensamento Dionísio Pape afirma: “Para negar a historicidade de Jonas e sua experiência no peixe seria necessário negar a veracidade de Jesus como o Filho de Deus”.14 Vejamos o relato bíblico:

Então, alguns escribas e fariseus replicaram: Mestre, queremos ver de tua parte algum sinal. Ele, porém, respondeu: Uma geração má e perversa pede um sinal; mas nenhum sinal lhe será dado, senão o do profeta Jonas. Porque assim como este Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe, assim o Filho do homem estará três dias e três noites no coração da terra (Mt 12.38-40).

Se a história de Jonas tivesse sido mera ficção, então, o sepultamento de Cristo na sexta-feira santa até a ressurreição no domingo de Páscoa, também seria ficção; não havendo, portanto, qualquer base para a comparação, diz Gleason Archer.15

Se Jonas não é uma personalidade histórica, então, sua profecia não existiu nem os ninivitas se converteram. Agora, se tudo não passou de uma lenda Cristo falseou a verdade e exortou sua geração sem nenhum fundamento, pois o texto bíblico é claro: “Ninivitas se levantarão no juízo com esta geração e a condenarão; porque se arrependeram com a pregação de Jonas. E eis aqui está quem é maior do que Jonas” (Mt 12.41).

Jesus foi categórico em afirmar que Jonas foi um sinal para os ninivitas assim como ele era um sinal para aquela geração. Se Jonas era uma lenda, então Jesus também precisaria ser uma lenda, do contrário não existiria uma conexão real de Jonas com Jesus. Lucas relata este fato assim:

Como afluíssem as multidões, passou Jesus a dizer: Esta é geração perversa! Pede sinal; mas nenhum sinal lhe será dado, senão o de Jonas. Porque, assim como Jonas foi sinal para os ninivitas, o Filho do homem o será para esta geração (Lc 11.29,30).

Edward Young diz que se os teólogos liberais consideram o livro de Jonas apenas como uma lenda ou uma parábola e não crêem na sua historicidade, Cristo creu.16 Quem deve merecer a nossa confiança: Cristo ou os teólogos liberais? Seja Deus verdadeiro e mentiroso todo homem!

IV. AS PECULIARIDADES DO LIVRO DE JONAS

O livro de Jonas tem algumas características peculiares:

Em primeiro lugar, ele é mais um relato histórico do que uma profecia. O livro é mais uma narrativa da experiência do profeta Jonas do que oráculos divinos pregados pelo profeta Jonas. Os demais profetas falam da parte de Deus ao povo em vez de contarem sua própria experiência. Desmond Alexander desta este fato nos seguintes termos:

Há muito se observa que o livro de Jonas é notadamente diverso das outras obras que compõem os profetas menores. Enquanto elas se concentram basicamente nos dizeres dos profetas, o livro de Jonas trata dos acontecimentos em torno da missão do profeta e contém apenas um brevíssimo registro de seus pronunciamentos.17

Em segundo lugar, ele é o único profeta especificamente comissionado a pregar aos gentios. Esse é o grande livro missionário do Antigo Testamento, diz Charles Feinberg.18 Jonas, um nacionalista zeloso é chamado por Deus e enviado a Nínive, uma grande cidade para proclamar contra ela. Nínive, mencionada pela primeira vez em Gênesis 10.11 era a antiga capital do Império Assírio. Situava-se na margem oriental do rio Tigre. Senaqueribe fê-la a capital da Assíria e os Medos e Persas a destruíram em 612 a.C. Nínive era a maior cidade do mundo daquele tempo (3.2,3; 4.11).19 Os pecados dos pagãos sobem até o céu e ofendem a Deus. Mas, o amor de Deus pelos pagãos desce até a terra e Deus envia a eles um mensageiro para anunciar-lhes sua Palavra. Jerónimo Pott diz que o propósito do livro de Jonas é ensinar que a providência e o cuidado de Deus não se limitam a Israel, mas se estendem também aos gentios.20

Em terceiro lugar, o livro de Jonas termina com uma pergunta retórica. Somente Jonas e Naum terminam suas profecias com uma pergunta retórica de Deus e curiosamente ambos os profetas profetizaram a Nínive, capital da Assíria. A pergunta registrada em Jonas revela a misericórdia de Deus e a pergunta registrada em Naum revela a sua justiça.

Em quarto lugar, o livro de Jonas descreve o maior protótipo da morte e ressurreição de Cristo no Antigo Testamento. A experiência vivida por Jonas três dias e três noites no ventre do grande peixe foi um sinal da morte e ressurreição de Cristo (Mt 12.38-40). Assim como a experiência de Jonas abriu-lhe a porta para anunciar aos pagãos a Palavra de Deus, a morte e a ressurreição de Cristo é o alicerce da nossa redenção. O livro de Jonas oferece-nos um protótipo das duas mais importantes doutrinas do Cristianismo: a morte e a ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo.

V. A TEOLOGIA DO LIVRO DE JONAS

James Wolfendale diz que o livro de Jonas é como um belo arco-íris de esperança enviado por Deus no meio das densas e tenebrosas nuvens do pecado e do sofrimento.21 Muitos escritores ao longo dos séculos debruçaram sobre este livro inspirado para extrair o seu propósito principal. Jerônimo, ilustre pai da igreja, acreditava que Jonas tinha sido composto para incentivar os judeus a se arrependerem. Se marinheiros pagãos e ninivitas ímpios podiam reagir à pregação profética com arrependimento, os ouvintes judeus deveriam agir de igual modo.22 Para Agostinho, Lutero e muitos escritores contemporâneos, a narrativa de Jonas ressalta o interesse missionário de Deus, cujo amor e misericórdia não se limitavam aos judeus. Por meio de Jonas, Deus não apenas repreende os que desejam limitar sua graça salvadora ao povo judeu, mas também demonstra eficazmente seu real interesse na salvação de pagãos ignorantes e pecadores.23 Vamos destacar algumas das sublimes verdades deste precioso livro:

A. O que o livro ensina sobre a salvação

1.A salvação é uma dádiva oferecida a todos os povos e não apenas aos judeus

Jonas tentou fugir da presença de Deus não com medo da sua ira, mas com medo da sua misericórdia. Ele foi o único pregador que ficou profundamente frustrado com o seu sucesso. Ele quis morrer porque os ninivitas receberam vida. Jonas fazia do seu nacionalismo extremado uma bandeira maior do que a obra missionária. Tinha prazer de pregar condenação aos pagãos, mas não se alegrava com sua salvação.

W. J. Deane acentua o fato de que a principal lição que os judeus deveriam aprender com o livro de Jonas é que a salvação também é destinada aos gentios. Os israelitas desprezavam os gentios e os consideravam indignos. Eles os viam como combustível para o fogo do inferno. Os israelitas estavam acostumados a ver os gentios como inimigos que deviam ser punidos por seus pecados e não como pessoas que deviam ser salvas. Outros profetas anunciaram essa verdade, mas Jonas viu diante dos seus olhos essa verdade se tornando realidade.24

Deus, porém, mostra a Jonas que ele tem o direito de usar misericórdia com quem quer, sem precisar dar satisfação a quem quer que seja. Diz Isaltino Filho: “Não temos o copyright de Deus. Ele é Senhor do mundo, de todos os povos e raças”.25

2.A salvação é uma dádiva de Deus recebida pela fé e não obtida pelas obras

Os ninivitas eram pessoas pagãs e viviam sem luz e sem santidade. Eles eram perversos, truculentos, sanguinários e idólatras. Pelas obras, eles jamais seriam salvos. Eles viviam sem esperança e sem Deus no mundo. Mas, Deus os amou e enviou-lhes um mensageiro e eles se arrependeram e creram na mensagem e foram salvos. Ainda hoje, o método de Deus de salvar o homem é o mesmo. A salvação não é uma conquista do homem, mas um presente de Deus. A salvação não é resultado do que o homem faz para Deus, mas do que Deus fez pelo homem. A salvação não é o caminho que o homem abre da terra para o céu, mas o caminho que Deus abriu do céu para a terra. A salvação é de graça para o homem, mas custou tudo para Deus. Ela é gratuita, mas não é barata. A verdade central do livro de Jonas é que “ao Senhor pertence a salvação” (2.9).

O que o livro ensina sobre Deus

O propósito principal do livro de Jonas é mostrar que Deus ama as nações e sua salvação é destinada a todos os povos. Deus é o personagem principal deste livro, pois o livro começa e termina com ele falando. Quem é Deus?

1.Deus é santo e não pode tolerar o mal

Deus não tolerou a maldade dos ninivitas e enviou Jonas para adverti-los (1.2) nem aceitou a rebeldia de Jonas e enviou a tempestade para pegá-lo (1.4). Deus ouviu a oração de Jonas e libertou-o do ventre do peixe; Deus ouviu o clamor dos ninivitas e salvou-lhes a alma. Deus vê os pecados e vê o arrependimento. Aos convertidos, Deus perdoa e salva; aos de coração duro, Deus repreende e corrige.

O pecado sempre provoca a ira de Deus, proceda ele dos ímpios ou da igreja. Deus não é um ser bonachão nem um velho senil de barbas brancas assentado numa cadeira de balanço. Ele é um ser revestido de glória e majestade, assentado num alto e sublime trono, diante de quem até os serafins cobrem o rosto. Deus não faz acepção de pessoas em sua misericórdia nem em sua disciplina. Deus não tem dois pesos e duas medidas.

2.Deus intervém na história e ninguém pode impedir sua mão de agir

O livro de Jonas mostra Deus em ação. Deus estava por trás dos grandes acontecimentos registrados neste livro. Nada que sucedeu foi acidental, diz Isaltino Filho.26 Deus é quem chama Jonas, quem envia a tempestade atrás dele, quem faz cessar o vento depois do lançamento de Jonas ao mar, quem dá ordens a um grande peixe para tragá-lo e depois de três dias vomitá-lo na praia. Deus é quem faz a planta nascer e morrer sobre a cabeça de Jonas. Deus é quem envia um verme para cortar a planta. Deus é quem abre o coração dos ninivitas e quem exorta o profeta recalcitrante. Deus é quem fala e quem age o tempo todo.

Rejeitamos o deísmo que ensina que transcendência de Deus, mas não sua imanência; que prega a majestade de Deus de Deus, mas não sua compaixão. Cremos, sim, no teísmo, que proclama que Deus está no trono, mas também entre o seu povo, vendo suas aflições, ouvindo seu clamor e descendo para socorrê-lo. Deus não é um ser distante e apático. Ele vê, ele ouve, ele age!

3.Deus é misericordioso e salva até mesmo os nossos inimigos

Jonas fica desgostoso com Deus não por causa da sua ira, mas por causa da sua misericórdia. Ele fica frustrado não com seu fracasso, mas com o seu sucesso. A conversão dos ninivitas produz festa no céu e tristeza no coração de Jonas. Enquanto os anjos celebram a vida dos ninivitas, Jonas pede para morrer. A grande verdade do livro de Jonas é que Deus se recusa a odiar os nossos inimigos. Ele salva até mesmo aqueles a quem nós queremos condenar.

O grande ensinamento do livro de Jonas é que Deus aceita também os gentios. É Deus quem toma a iniciativa de reconciliar consigo o mundo. A salvação é uma obra exclusiva de Deus. Os gentios que estavam separados da comunidade de Israel foram também chamados para fazer parte da igreja do Deus vivo. Essa concepção só foi completamente mudada no Novo Testamento, como vemos em Atos 10.34: “Então Pedro, tomando a Palavra, disse: Na verdade reconheço que Deus não faz acepção de pessoas”. Deus não é propriedade apenas da igreja; Ele é o Senhor soberano e absoluto de todo o mundo.27

4.Deus conduz os seus planos à consumação e nenhum deles pode ser frustrado

Jonas pensou que podia ser mais sábio do que Deus. Ele tentou mudar a agenda de Deus. Ele tentou escapar de Deus e fugir para Társis, o fim do mundo. Deus o mandou ir para Nínive, que ficava à leste, no nascente do sol, mas ele foi para Társis, no oeste, no poente do sol. Jonas caminhou rumo a uma noite escura em vez de caminhar na direção da luz.

Mas, Deus é inescapável e seus planos são vitoriosos. Ninguém pode frustrar os desígnios do Altíssimo. Ninguém pode esconder-se Daquele que a todos e a tudo vê. Para ele a luz e as trevas são a mesma cousa. Ninguém pode lutar contra Deus e prevalecer. Ninguém pode cair sobre a rocha dos séculos sem ficar esmagado. Os caminhos de Deus são perfeitos. A vontade de Deus é soberana. O propósito de Deus é vitorioso!

5.Deus está no controle da História e também dos elementos da natureza

Deus governa soberanamente em todo o universo. Não há um centímetro sequer deste vasto cosmos onde Deus não esteja presente fazendo cumprir sua vontade soberana. Não apenas Nínive estava sob olhar de Deus, mas também o vento, o mar, o peixe, e as plantas. O mesmo Deus que ama os ninivitas, também levanta uma tempestade no mar e prepara um grande peixe para tragar Jonas. Vemos no livro do profeta Jonas que homens, peixes, vermes, animais e plantas estão a serviço de Deus. Deus domina sobre o mundo espiritual e sobre o mundo material. Ele reina sobre o mundo humano, animal, e vegetal. Ele é o Deus das grandes e pequenas coisas. Ele se importa com uma grande cidade e até com os seus animais (4.11).

6.Deus é fiel e sua fidelidade é maior do que a infidelidade do homem

Jonas foi infiel a Deus, desobedecendo à sua ordem, mas Deus foi misericordioso e fiel a Jonas não o destruindo por isso, nem lhe retirando o ofício de embaixador de sua Palavra. Em vez de destruir-nos em nossas fraquezas, Deus nos restaura. Em vez de esmagar-nos por causa dos nossos fracassos, Deus nos ensina através deles.

Mesmo quando somos infiéis, Deus permanece fiel, porque não pode negar-se a si mesmo. Deus nos usa apesar de nós. A missão de Jonas jamais teria sido um sucesso, se dependesse dele. Nínive converteu-se a Deus não por causa de Jonas, mas apesar de Jonas. A mensagem de Jonas foi um libelo de condenação sem qualquer fresta de esperança. O sentimento de Jonas era contrário à salvação de seus ouvintes. A motivação de Jonas não estava alinhada com a motivação de Deus de salvar os ninivitas. Mas, apesar de tudo isso, Deus realizou o maior milagre evangelístico da história na cidade de Nínive por causa do evangelista, mas apesar dele.

7.Deus tem seus ouvidos atentos para ouvir as orações

Deus ouviu as orações dos marinheiros e os poupou. Deus ouviu o clamor de Jonas nas entranhas do grande peixe e o libertou da morte. Deus ouviu o clamor dos ninivitas e os salvou. Deus ouviu até mesmo os queixumes do profeta rebelde e o repreendeu com amor.

Quando chegamos ao fim das nossas forças, Deus se manifesta abrindo-nos uma porta de esperança. Quando as circunstâncias nos encurralam e parece que a tragédia se torna inevitável, o braço onipotente de Deus nos traz livramento. Na verdade, as poderosas intervenções de Deus na História são uma resposta às orações do seu povo. Ele jamais desampara aqueles que nele esperam.

8.Deus é o Deus de todos os povos e não apenas dos judeus

Deus não é uma divindade tribal. Ele é o Senhor do universo. O Reino de Deus é maior do que a igreja. Deus se importa com todas as nações. Seu plano é abençoar todas as famílias da terra através do seu povo. O apóstolo Paulo coloca essa verdade bendita de forma eloqüente: “É, porventura, Deus somente dos judeus? Não o é também dos gentios? Sim, também dos gentios” (Rm 3.29).

Israel foi separado por Deus para ser luz para as nações. O projeto de Deus não era esconder Israel dos povos, mas levar a luz de Israel para dentro dos outros povos. Assim também, a igreja não deve ser retirada do mundo, mas ser luz no mundo.

O que o livro ensina sobre Jonas

Jonas presumiu que sabia resolver os problemas de Deus melhor do que o próprio Deus e assim, por causa de seus preconceitos teológicos, recusou-se a ser um missionário além fronteira e uma bênção para os outros.28 Vejamos um pouco do perfil desse profeta nacionalista.

1.Jonas tem uma teologia certa e uma prática errada

Jonas respondeu aos marinheiros: “Sou hebreu e temo ao Senhor, o Deus do céu, que fez o mar e a terra” (1.9). Jonas diz que teme ao Senhor, mas o desobedece. Ele professa crer na soberania de Deus, mas o desafia. Ele afirma que Deus é o criador do céu e da terra, mas tenta fugir da sua presença. Ele diz que teme a Deus, mas além de fugir (1.3), ainda discute com Deus (4.3,4; 4.8-11). Sua teologia está em descompasso com sua prática. Ele é ortodoxo de cabeça e herege de conduta. Ele crê numa coisa e pratica outra. Há um abismo entre sua fé e sua conduta; um divórcio entre sua teologia e sua vida.

Isaltino Filho diz que Jonas era um homem com um credo ortodoxo e com uma ética mesquinha. Ele sabia como citar a sua Bíblia de memória, pois sua oração, no capítulo 2, está repleta de citações dos Salmos. Ele sabia as Escrituras, mas não se importava nem um pouco com as pessoas. Sua queixa contra Deus é que Deus é misericordioso. Até onde se sabe Jonas foi a única pessoa que reclamou da bondade de Deus.29

2.Jonas faz a obra de Deus, mas com a motivação errada

Jonas é como o irmão mais velho do pródigo, obedece por obrigação e não por prazer. Sua obediência é compulsória e não voluntária. Ele prega, mas sem amor. Ele espera não a salvação, mas a condenação de seus ouvintes. Ele chora de tristeza porque os ninivitas recebem misericórdia em vez de juízo, perdão em vez de destruição. Jonas quer morrer porque os ninivitas receberam o dom da vida eterna. Jonas tem piedade de uma planta que ele não cultivou, mas nenhuma compaixão por mais de cento e vinte mil pessoas que não sabem distinguir entre a mão direita e a mão esquerda (4.11).

Jonas quer mudar a mente Deus em vez de mudar sua própria conduta. Ele espera que Deus se arrependa da sua misericórdia em vez dele arrepender-se de sua dureza de coração. Jonas reclama não da severidade de Deus, mas da sua bondade. Jonas só consegue amar os seus iguais. Sua teologia é reducionista. Ele tem a mentalidade de gueto e quer lotear o céu apenas para o seu povo. Desmond Alexander disse que Deus teve compaixão de Nínive, mas destruiu a planta. Jonas, por sua vez, teve compaixão da planta, mas exigiu a destruição de Nínive. Jonas queria misericórdia para si e justiça para os seus inimigos. Porém, Deus é soberano, sua justiça é totalmente imparcial e sua misericórdia pode alcançar qualquer pessoa.30

3.Jonas quer receber bênçãos, mas não quer ser bênção

Jonas é um provocador de tempestades. Em vez de ser bênção para as pessoas, é a causa de seus problemas (1.3-5). Mais tarde, Jonas se alegra em extremo por causa de uma planta que lhe trouxe refrigério em tempo de calor (4.6). Ele já fora alvo da providência divina arrancando-o das entranhas da morte, mas ele não quer ser bênção para o mundo. Jonas é um profeta nacionalista, que tenta reduzir Deus a uma divindade tribal. Jonas é exclusivista. Ele quer as bênçãos apenas para si e o juízo divino para os outros. Isaltino Filho diz que o homem que deveria ser uma bênção para o mundo estava se tornando uma maldição por causa de sua insensibilidade. Crentes de coração duro são maldição para o mundo. Na realidade, para a igreja, também.31

O evangelho tem sido adulterado por muitos pregadores e escritores. As pessoas correm atrás das bênçãos em vez de buscarem o abençoador. Eles querem as dádivas de Deus e não o Deus das dádivas. O evangelho que elas buscam é um outro evangelho, centralizado no homem e não em Deus. Muitos mascates da fé falam hoje na “bênção de Abraão”, que é a unção para ficar rico. Mas antes de receber bênçãos, Abraão deveria ser bênção (Gn 12.1-3), diz Isaltino Filho.32

4.Jonas prefere morrer a se arrepender

Jonas não tem medo da morte, ele tem medo de Deus salvar seus inimigos da morte. Jonas está pronto a morrer, mas não disposto a se arrepender. Ele prefere ser jogado no mar a humilhar-se diante de Deus e tomar o caminho da obediência.

Nem depois de passar pela dolorosa experiência de ser tragado por um peixe Jonas mudou sua conduta. O livro se inicia com Jonas indiferente à sorte dos ninivitas e termina com Jonas ainda absolutamente indiferente à sorte deles.33

Por que Jonas fugiu? Por que ele ainda continua emburrado depois de terminar sua missão em Nínive? Charles Feinberg lista cinco respostas a essas perguntas: primeiro, o arrependimento e a conseqüente sobrevivência de Nínive poderia ser mais tarde a derrocada do próprio povo de Israel; segundo, Jonas temia que a conversão dos gentios seria em detrimento dos privilégios de Israel como povo escolhido; terceiro, o fanatismo religioso de Jonas não o deixou alegrar-se no fato de Deus revelar sua graça a um povo pagão; quarto, Jonas sabia mediante profecias anteriores (Os 9.3) que a Assíria deveria ser o açoite disciplinador de Deus contra Israel; finalmente, Jonas declara que fugiu porque temia que a mensagem de Deus fosse bem-sucedida entre os ninivitas.34

5.Jonas demonstra contradição mais do que contrição

Jonas é um homem contraditório, uma figura patética. Ele é um profeta, mas não se dispõe a falar o que Deus manda nem a ir aonde Deus envia (1.2,3). Quando está com a alma angustiada no ventre do grande peixe, nas camadas abissais do oceano, pede o livramento da morte (2.2) e depois de resgatado e instrumentalizado por Deus já quer morrer e pede para si a morte duas vezes (4.3; 4.8).

Jonas está ofendido porque pensa que Deus arruinou a sua reputação de profeta, uma vez que pregou juízo e o povo ninivita experimentou misericórdia. Jonas receia ser chamado de falso profeta por seu pronunciamento contra Nínive permanecer sem cumprimento.35 Pelo arrependimento dos ninivitas Deus estava revogando um juízo já pronunciado. Jonas deu mais valor à sua reputação do que a salvação de mais de cento e vinte mil pessoas.

O que o livro ensina sobre os pagãos

1.Os pagãos oram com mais fervor aos seus deuses que o profeta ao seu Deus

Os marinheiros quando foram assolados pela tempestade oraram intensamente aos deuses e buscaram socorro, mas Jonas ao mesmo tempo dormia o sono da indiferença e da fuga. Ele, quando exortado a invocar o seu Deus, não o fez. Apenas quando foi desmascarado como o culpado da trágica tempestade revelou sua identidade, escondendo, entretanto, o fato de ser profeta.

Quando os marinheiros lhe perguntaram: “Que ocupação é a tua? Donde vens? Qual a tua terra? E de que povo és tu?” (1.8) Jonas não respondeu qual a sua ocupação. Ele mesmo não diz que é um profeta. Sua resposta foi ambígua. Jonas não se assume como profeta nem age como profeta.36

Os ninivitas ao ouvirem a voz de Deus se arrependeram e se humilharam desde o rei até às crianças. Jonas ouviu a voz de Deus e fugiu. Eles oraram com fervor e Jonas reclamou com amargor. Os pagãos demonstravam mais fervor que o profeta. A religiosidade deles era mais vívida do que a do profeta.

É lamentável que os idólatras e seguidores das seitas heréticas sejam mais zelosos na sua prática religiosa do que aqueles que foram escolhidos, chamados, remidos e santificados por Deus. Aqueles que vivem sem a luz do evangelho, muitas vezes, demonstram mais zelo em suas crenças vãs do que os filhos de Deus, que têm a Palavra e Espírito Santo para guiá-los a uma vida abundante.

2.Os pagãos temem a Deus e se convertem; Jonas teme a Deus, mas permanece rebelde

O temor de Jonas é mais teológico e menos prático. Ele tem ortodoxia, mas não tem ortopatia nem ortopraxia. Ele tem a doutrina certa (ortodoxia), mas não sentimentos certos (ortopatia) e atitudes certas (ortopraxia). Isaltino Filho diz que o bom ortodoxo deve praticar a ortopatia e a ortopraxia. Caso contrário poderá ser apenas um fariseu. Crê, mas não vive. Ortodoxia sem ortopatia e sem ortopraxia é de pouca utilidade para o mundo.37 Tanto os marinheiros quanto os ninivitas demonstraram com vida transformada o seu temor a Deus; Jonas professa temer ao Deus do céu, mas continuou recalcitrando contra os aguilhões.

Jonas apenas diz que teme ao Senhor, o Deus do céu, que fez o mar e a terra (1.9), mas os marinheiros ficaram possuídos de grande temor e repreenderam a Jonas (1.10). Quando viram o mar se acalmar, eles temeram em extremo ao Senhor e ofereceram-lhe sacrifícios e fizeram votos (1.16). O sentimento de reverência dos pagãos é maior do que o temor do profeta. Quando os ninivitas ouviram a Palavra de Deus, eles creram em Deus e proclamaram um jejum, e vestiram-se de pano de saco, desde o maior até o menor (3.5).

É triste quando a espiritualidade dos pagãos é maior do que a do povo de Deus! Os incrédulos, muitas vezes, agem de forma mais elevada que o povo de Deus. O procedimento dos marinheiros pagãos e dos ninivitas é superior ao de Jonas.

3.Os pagãos demonstram mais amor do que Jonas, o profeta de Deus

Jonas não demonstrou nenhuma preocupação com os marinheiros quando se refugiou no sono da fuga. Os marinheiros tentaram de todas as formas salvar a vida de Jonas, contudo, mais tarde Jonas não demonstrou nenhum amor pelos ninivitas, antes desejou que eles fossem subvertidos. Jonas é objeto do amor dos pagãos, mas não demonstra nenhum amor a eles. A ética dos pagãos ultrapassa a ética de Jonas.

Rev. Hernandes Dias Lopes

1 Comentário

  • soerem ferreira de miranda Posted 1 de abril de 2010 15:56

    Eu adorei esse texto mas nao conseguio ver todo o texto so a introdução esta falando : clique aqui para ler o texto na íntegra mas toda hora da Erro como que eu fasso?
    Se alguem souber por favor comente

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