O rugido do leão

INTRODUÇÃO

Amós é um megafone de Deus. Ele é um outdoor ambulante com uma solene mensagem para a nação de Israel. Ele faz soar a trombeta de Deus trazendo uma mensagem solene. Nos próximos três capítulos deste livro, Amós proclama três mensagens: explicação (3.1-15), acusação (4.1-13) e lamentação (5.1-6.14). Todas elas começam com a ordem: “Ouvi”.

C. F. Keil afirma que pelo fato do Senhor ter escolhido Israel para ser seu povo, ele deve punir seus pecados (3.2) e comissionar profetas para anunciar o seu julgamento (3.3-8). Como Israel semeou opressão, violência e maldade, um inimigo saqueará a sua terra e destruirá Samaria, fazendo, assim, perecer seus habitantes. Os altares de Betel serão demolidos e a capital destruída (3.9-15). O capítulo três de Amós enseja algumas lições que vamos considerar.

I. PRIVILÉGIOS IMPLICAM EM RESPONSABILIDADES (3.1,2)

Antes de Deus embocar a trombeta do juízo contra Israel, recorda-o de seus muitos privilégios. A trombeta está tocando não para estranhos, mas para o povo eleito. O leão está rugindo não nas selvas do paganismo, mas na cidade povoada pelo povo da aliança. J. A. Motyer diz que este é o povo da aliança e da adoção; é o povo remido e que tem uma intimidade singular com Deus.1 O juízo começa pela Casa de Deus (1Pe 4.17). O castigo é proporcional ao privilégio. Quanto mais próximos estivermos do Senhor, tanto maior fidelidade se requer de nós, diz Charles Feinberg.

1. Um chamado gracioso (3.2)

De todas as famílias da terra, Deus pôs o seu coração em Israel. Deus o escolheu não por ser uma grande nação nem por ser a melhor (Dt 7.6-8). A causa da escolha divina está nele mesmo. Não há nada que possamos fazer para Deus nos amar mais nem nada que possamos fazer para Deus nos amar menos. Não fomos nós quem o escolhemos, mas foi ele quem nos escolheu (Jo 15.16). Ele nos escolheu desde os tempos eternos (2Tm 1.9), antes da fundação do mundo (Ef 1.4) e, fez isso graciosamente sem nenhum merecimento nosso. Deus não nos escolheu por causa da nossa fé, mas para a fé (At 13.48). Deus não nos escolheu por causa das nossas boas obras, mas para as boas obras (Ef 2.8-10). Deus não nos escolheu por causa da nossa santidade, mas para sermos santos (Ef 1.4). Deus não nos escolheu por causa da nossa obediência, mas para a obediência (1Pe 1.2).

2. Um chamado eficaz (3.1b)

Deus não só escolheu Israel, mas o remiu, o libertou e o chamou. Deus tirou o seu povo dos grilhões da escravidão, protegeu-o por meio do sangue do cordeiro, libertou-o com mão forte e poderosa e sustentou-o por sua generosa providência. O Deus que elege graciosamente é o mesmo que salva totalmente e chama eficazmente. O chamado de Deus é irresistível. Sua graça é eficaz. É impossível que uma pessoa eleita pereça, pois todos quantos Deus predestina, ele chama; e a todos os que ele chama, justifica e glorifica (Rm 8.30).

3. Um chamado exclusivo (3.2a)

Deus disse a Israel: “De todas as famílias da terra, somente a vós outros vos escolhei”. O relacionamento íntimo de Deus com Israel foi exclusivo. Warren Wiersbe diz que o termo “escolher”, que também pode ser traduzido como “conhecer”, indica um relacionamento íntimo, como aquele de marido e mulher (Gn 4.1). “Conhecer” é “escolher” (Gn 18.19; Jr 1.5; 2.2,3). Pelo fato de pertencer exclusivamente ao Senhor, Deus fez por Israel coisas que não fez por nenhuma outra nação (Rm 9.4,5).

4. Um chamado proposital (3.3)

Deus chamou Israel para uma relação de amor e comunhão. Grande é a bênção da proximidade de Deus, mas grande é, também, a responsabilidade de viver em conformidade com essa luz.4 Deus libertou esse povo para ser sua noiva amada. A eleição divina é para a salvação do pecado e não no pecado. A eleição é para a santidade e não uma licença para pecar. Intimidade implica em responsabilidade.

A concordância com Deus é necessária para andar com ele. No passado Deus andou com Israel (Jr 3.14) porque estavam de acordo, mas agora os caminhos de Israel e os caminhos do Senhor são tão diversos que não pode haver comunhão entre eles, diz Charles Feinberg. Deus e o pecador não estão de acordo. Deus é luz. Deus é santo. Por isso, o nosso pecado faz separação entre nós e o nosso Deus. Não há nada em comum entre Deus e o pecador. Eles estão em lados opostos como dois viajantes em diferentes direções. A intimidade só pode ser cultivada por aqueles que têm unidade de pensamento, sentimento e propósito. O pecado nos separa de Deus ou a comunhão com Deus nos separa do pecado. A Septuaginta traduziu a expressão “se não estiverem de acordo” para “se não se conhecerem”. Israel, na sua injustiça e hipocrisia se afastara para tão longe do Senhor, que não tinha conhecimento do Espírito de Deus.

5. Um chamado que implica responsabilidade (3.2b,3)

J. A. Motyer diz que o pecado é desesperadamente sério no meio do povo de Deus. Os pagãos ficam sob a condenação por violarem a consciência; o povo de Deus deve, portanto, ficar três vezes mais, por violar a consciência, a revelação e o amor que fez dele o que é. É conhecida a expressão de Pusey: “Quanto mais perto de sua própria luz Deus coloca alguém, mais maligna é a escolha das trevas”.

A graça de Deus não é uma licença para pecar. Não fomos salvos no pecado, mas do pecado. Nós fomos eleitos pela santificação do Espírito e fé na verdade (2Ts 2.13). Nós fomos eleitos para a santidade (Ef 1.4). Israel, por viver na contramão da vontade de Deus tinha uma confiança espúria nele e uma visão supersticiosa da eleição.8 Eles torciam a doutrina da eleição. Pensavam que Deus se deleitava neles mesmo vivendo em seus pecados. Achavam que só lhes cabia privilégios e não responsabilidades. Mas Deus diz que vai punir Israel não apenas por causa de seus pecados, mas também por causa de seus privilégios desperdiçados. O puritano Richard Baxter diz que os pecados do povo de Deus são mais graves, mais hipócritas e mais danosos do que os pecados do ímpio. O povo de Deus peca contra maior luz, contra maiores princípios de vida e mais íntimo relacionamento.

A graça de Deus deve nos estimular à santidade mais do que o medo do castigo (1Jo 3.1,2). O amor a Jesus deve ser a nossa grande motivação para viver e trabalhar no reino de Deus (2Co 5.14; Jo 21.15-17). Nossas obras são feitas não para alcançar o favor de Deus, mas porque já fomos alcançados por sua graça (Ef 2.10). O privilégio é o maior estímulo para a responsabilidade (Ef 1.3,4; Jo 15.16; 1Pe 2.4,5,9). Jesus afirmou: “Mas àquele a quem muito foi dado, muito lhe será exigido” (Lc 12.48). Como povo escolhido de Deus, devemos viver de modo digno da vocação com que fomos chamados (Ef 4.1).

A Escritura diz que “os dons e a vocação de Deus são irrevogáveis” (Rm 11.29). Deus não anula a eleição da graça com seu povo, por isso, disciplina-o, não para destruí-lo, mas para restaurá-lo. Por sermos filhos e não bastardos Deus nos disciplina (Hb 12.7ss). J. A. Motyer corretamente afirma: “Privilégios especiais, obrigações especiais; graça especial, santidade especial; revelação especial, escrutínio especial; amor especial, obediência especial… a Igreja de Deus não pode jamais escapar dos perigos de sua singularidade”.

II. O PECADO SEMPRE ATRAI JUÍZO (3.3-8)

1. O pecado jamais ficará sem julgamento (3.4-6)

O profeta Amós menciona cinco parábolas, dando vários exemplos de causa e efeito para ressaltar a mensagem do juízo de Deus dirigido à pecaminosa nação de Israel. Charles Feinberg diz que no mundo natural, na natureza, nada acontece por acidente ou acaso; de igual modo, na esfera dos negócios de Deus há sempre uma causa para cada efeito.10 J. A. Motyer diz que um “antes e depois” é a característica de todos os versículos centrais (3.4-6). No verso 4a, o leão ruge pronto para saltar e no versículo 4b, a presa foi apanhada e o rosnado da fera está sendo ouvido em sua toca para a qual a carcaça foi levada para servir de alimento; no versículo 5a, a ave cai no laço, e no versículo 5b, a armadilha se fechou; no versículo 6a, a trombeta faz advertência de um perigo iminente, mas no versículo 6b, o golpe já foi dado. Este movimento dos versículos, da ameaça à execução, constitui um poderoso apelo conclusivo da mensagem que Amós acabou de pregar. Quatro solenes verdades devem ser aqui destacadas:

Em primeiro lugar, a sentença de Deus estava lavrada contra seu povo rebelde (3.4). O leão enquanto busca a sua presa fica em silêncio. Ele ruge quando está para dar o bote fatal. Israel não mais escapará. O juízo divino já foi lavrado, pois o leão já está rugindo. O leãozinho só levanta a sua voz no covil quando a presa já foi apanhada. A verdade encerrada nesta figura é que as predições ameaçadoras do profeta são o efeito, enquanto a causa é o estado pecaminoso da nação, diz Charles Feinberg. É impossível escapar à punição justa do pecado. Há perfeito acordo entre o sentido da mensagem de Amós e a seguinte declaração do apóstolo Paulo: “Não vos enganeis: de Deus não se zomba; pois aquilo que o homem semear, isso também ceifará” (Gl 6.7).

Em segundo lugar, o povo de Deus está caindo no laço do seu próprio pecado (3.5). Israel é a ave que caiu no laço ou a presa que caiu na armadilha. O povo armou um laço e caiu nele. O homem é apanhado pelas próprias cordas do seu pecado. O que ele semeia, ele colhe.

Em terceiro lugar, a proclamação do juízo de Deus é como um terremoto (3.6). A trombeta era um instrumento que anunciava a calamidade e a guerra iminente. Quando a trombeta soava na cidade, o povo tremia de medo. A trombeta de Deus estava sendo tocada e o mal estava preste a chegar. Nada ficará de pé quando Deus visitar o seu povo em sua ira. As construções mais sólidas serão destruídas (3.15) e os homens mais valentes vão perecer (2.14-16).

Em quarto lugar, o juízo contra o pecado é acionado pela própria mão de Deus (3.6b). É Deus quem está trazendo o mal à cidade. Esse mal não é o mal moral, pois Deus não pode praticá-lo (Tg 1.13), mas a calamidade, a guerra, o infortúnio e o desastre iminente (1Sm 6.9; Jr 1.14; Is 45.7). O Senhor Deus é soberano, governador de tudo que acontece, do bem e do mal, diz Crabtree.13 Foi Deus quem entregou Israel nas mãos da Assíria. Foi Deus quem entregou Judá nas mãos da Babilônia. O ímpio é a vara da ira de Deus para disciplinar o seu povo rebelde. James Wolfendale diz que o juízo sobre Israel é procedente de Deus e não de qualquer outra fonte; ele é merecido, preparado, executado e sem nenhuma possibilidade de escape.

2. O julgamento nunca vem antes do alerta divino (3.7)

Deus não apenas chamou Israel para ser o seu povo, mas também chamou profetas para falar a essa nação. Antes de Deus enviar o juízo, ele faz ouvir a voz da advertência. Antes das taças da ira serem derramadas, as trombetas começam a tocar. Antes de o juízo ser consumado, Deus revela seu propósito aos profetas e levanta-os para pregar ao povo. Deus avisou Noé acerca do dilúvio; falou com Abraão sobre a destruição de Sodoma e Gomorra; preveniu a José com referência aos sete anos de fome, e assim fez com seus servos através dos séculos da história de Israel. Até nosso Senhor Jesus advertiu os apóstolos acerca da vindoura desolação de Jerusalém (Lc 21.20-24).

Quando um profeta proclama a Palavra de Deus, é porque Deus está prestes a fazer alguma coisa importante e deseja alertar o seu povo (3.7). Amós está proclamando o rugido do leão (3.8). A voz é de Amós, mas a palavra é de Deus. Toda a Escritura é uma trombeta de Deus para alertar o homem que o dia do juízo chegará. Das páginas da Bíblia ecoa o rugido do leão. Aqueles que caminham desapercebidos terão que enfrentar inevitavelmente o justo juízo de Deus. Amós estava golpeando a nação com sua voz, expondo a hediondez de seus pecados, tocando, assim, em todos os pontos nevrálgicos com sua palavra profética. Russell Norman Champlin ilustra esse fato assim:

Abraham Lincoln, o grande emancipador dos escravos dos Estados Unidos da América, estava condicionado para desempenhar esse trabalho. Quando ainda era jovem, fez uma viagem pelo rio Mississippi, até a cidade de Nova Orleans. Ele trabalhava em uma embarcação que levava cargas àquela cidade, provenientes de cidades do norte. Percorrendo a pé a cidade, aconteceu-lhe encontrar um mercado de escravos. Ali viu homens, mulheres e crianças negros sendo vendidos para quem oferecesse mais dinheiro. Viu famílias sendo rasgadas e coração sendo despedaçados por essa prática iníqua. E disse em voz alta: “Se eu chegar a ter a oportunidade de ferir essa coisa, haverei de feri-la gravemente”. Ele estava destinado a tornar-se um dos presidentes dos Estados Unidos da América, e, quando obteve essa oportunidade, feriu gravemente a escravatura em sua nação.

Assim também aconteceu com Amós. Ele recebeu autoridade da parte de Deus e feriu gravemente a apostasia de Israel. Israel, porém, não lhe deu ouvidos.

III. O PECADO NUNCA FICA ESCONDIDO (3.9,10)

Os pecados de Israel são denunciados pelo profeta Amós, testemunhados pelas nações pagãs e julgados por Deus. O pecado não ficará escondido.

1. Quando o povo de Deus peca até os pagãos se escandalizam (3.9)

Deus convocou testemunhas contra Israel. Warren Wiersbe diz que em seu tempo, o profeta Isaías chamou o céu e a terra para testemunhar contra Judá (Is 1.2), e Amós convocou as nações gentias para testemunhar contra Israel. O pecado de Israel era tão grande que assustava até as nações pagãs, pois, afinal de contas, Israel estava pecando consciente e deliberadamente (1Co 5.1).

É lamentável quando o povo de Deus torna-se repreensível aos olhos dos ímpios. Abraão em duas ocasiões mentiu para reis pagãos acerca da sua esposa (Gn 12.10-20; 20.1ss). Sansão tornou-se espetáculo e motivo de chacota para os filisteus num templo pagão (Jz 16), e o adultério de Davi com Bate-Seba deu “motivo a que blasfemassem os inimigos do Senhor” (2Sm 12.14).

Amós convocou os filisteus (Asdode) e os egípcios para testemunhar os que estava acontecendo em Samaria. Deus está chamando Asdode, uma cidade que cometeu graves pecados sociais para testemunhar contra os pecados sociais de Israel. Aqueles que não receberam uma revelação especial estão julgando o povo que a possui. Da mesma forma, o Egito que já havia oprimido a Israel é chamado para testemunhar e julgar suas crueldades. Os menos culpados são chamados para julgar os mais culpados. Aqueles que não receberam revelação especial nem foram redimidos estão julgando o povo da aliança. Eis um povo sem revelação e sem redenção; e, aqui, outro cheio de graça e luz de Deus, e o primeiro pode julgar o segundo por perturbar a comunhão da boa ordem social e por desprezar e desvalorizar os seus semelhantes.

2. Quando o povo de Deus se entrega ao pecado, ele se torna pior do que os ímpios (3.10)

A cidade de Samaria estava cheia de tumultos e opressão (3.9). Os castelos estavam cheios de violência e devastação (3.10). Israel não sabia mais fazer o que era reto (3.10). O afastamento deliberado de Deus empurrou o povo para a degradação moral. A impiedade desemboca na perversão (Rm 1.18). O pecado cauteriza a consciência, calcifica o coração e tira da alma toda a sensibilidade espiritual. Os israelitas estão vivendo no pecado de forma contumaz e incorrigível. Eles perderam o temor de Deus e o amor pelo próximo. Viam os pobres como alguém que deviam explorar e esmagar. Eles só buscavam a segurança e o conforto da riqueza, mesmo que essa riqueza fosse desumanamente roubada dos pobres.

IV. O PECADO NUNCA FICA SEM PUNIÇÃO (3.11-15)

J. A. Motyer alerta para o fato de esquecermo-nos de que o nosso Deus pode se tornar nosso inimigo (Is 63.10) e com toda a nossa conversa de tomar cuidado para não cair sob o poder de Satanás, ficamos cegos para a possibilidade muito mais perigosa, de perder o poder de Deus.19 A Bíblia diz que horrenda coisa é cair nas mãos do Deus vivo.

1. Quem não escuta a voz de Deus, terá que suportar a vara da disciplina de Deus (3.11)

Israel desviou-se de Deus deliberadamente 209 anos. Nesse tempo 19 reis em 8 dinastias assumiram o trono para só liderar ainda mais a nação para longe de Deus. O Senhor enviou profetas para admoestar a nação, mas a alguns taparam os ouvidos, a outros perseguiram e prenderam e a outros ainda mataram. Agora, então, Deus entrega o seu povo nas mãos do rei da Assíria para serem levados para o cativeiro. O homem que muitas vezes é corrigido e não se humilha será quebrado repentinamente sem que haja cura (Pv 29.1).

2. Deus é o agente do julgamento ao seu próprio povo (3.14,15)

Deus se torna o maior inimigo de Israel. O juízo que desaba sobre a nação rebelde procede do próprio Deus. O que homem semeia, ele colhe. O mal que ele pratica, cai sobre a sua própria cabeça. O mal que ele pratica contra o pobre, o fraco e o indefeso será, agora, punido inexoravelmente pelo grande juiz de toda a terra. Os tribunais que ele subornou, comprando sentenças por dinheiro não poderão livrá-lo do justo tribunal de Deus.

3. O julgamento de Deus perscrutará toda as áreas da nação (3.11-15)

O que o homem faz em oculto virá à plena luz. Nada pode ficar escondido aos olhos oniscientes de Deus. Ele tudo conhece e tudo julga retamente. Quais foram as áreas de abrangência do julgamento de Deus?

Em primeiro lugar, Deus julgou a vida moral da nação (3.11). A cidade de Samaria era um antro de corrupção e violência. Os reis eram maus, os juízes eram gananciosos e injustos, os ricos eram avarentos e violentos, as mulheres eram fúteis e amantes do prazer. A cidade estava entregue à volúpia e a luxúria. Enquanto os pobres espoliados amargavam as agruras da fome, os ricos se refestelavam com vinhos caros, em camas de marfim na segurança de seus castelos. Israel tornou-se um povo tão corrompido que não sabia mais fazer o que era certo (3.11). James Wolfendale falando sobre a culpa da nação diz que eles perderam a sensibilidade moral, perverteram publicamente a justiça e cometeram fraudes desavergonhadamente.

Em segundo lugar, Deus julgou a ganância insaciável dos ricos (3.11,15). O juízo de Deus sobre Samaria poria fim ao luxo e à arrogância. As casas mais ricas estavam entrando em colapso. Os verdadeiros símbolos da riqueza e da opulência dos poderosos tornar-se-iam pó.

Os ricos cheios de ganância e avareza haviam acumulado grandes fortunas. A avareza é o desejo insaciável de ter mais, sempre mais, inclusive o que é do outro. A ganância dos ricos, mancomunados com juízes corruptos, trouxe à aristocracia de Israel uma riqueza ostensiva. Enquanto o povo vivia na miséria, os ricos tinham casas de inverno, casas de verão, casas de marfim e grandes casas ou castelos. Eles se refugiavam nesses palácios ricamente adornados e fortemente protegidos pensando que o mal jamais entraria pelos portões fortemente protegidos de seus castelos. Estavam como o rico insensato da parábola de Jesus, pensando erradamente que a riqueza pudesse lhes dar segurança (Lc 12.12-21). Mas, eles não se aperceberam que ninguém peca impunemente contra Deus. O juízo pode parecer tardio, mas ele virá certamente. O dia de Israel chegou. Assíria com seus exércitos sedentos de sangue invadiu a cidade de Samaria, saqueou-a e destruiu todos os símbolos da força e poder daquela nação pecaminosa. Isso ocorreu em 722 a.C., quando os assírios invadiram Israel. Os israelitas haviam explorado uns aos outros, mas seriam despojados por uma nação pagã e gentia. Colhemos aquilo que semeamos.

Amós usou uma ilustração da vida pastoril para revelar a gravidade do que estava para acontecer a Israel (3.12). De acordo com Êxodo 22.10-13, se um leão tomasse um carneiro e o despedaçasse, o pastor devia trazer o que havia sobrado para provar que a ovelha estava, de fato, morta (Gn 31.39). Era uma espécie de garantia que o pastor não estava roubando o dono do rebanho. Motyer diz que tal salvamento não era nenhum salvamento; era apenas a evidência de algo que fora antes, mas já não é mais. O versículo 12 fala que assim serão salvos os filhos de Israel que habitam em Samaria com apenas o canto da cama e parte do leito. Camas, leitos, travesseiros resumem a vida e os hábitos do povo. Sensualidade, luxo, ociosidade, cuidados com o corpo, mas nenhuma evidência de religião, nenhuma espiritualidade. Eles tinham vivido apenas para os deleites do corpo. O deus deles era o prazer. Viviam movidos pelo hedonismo. Assim, Deus se afasta deles e os entrega à Assíria.

Quando a Assíria terminasse de arrasar Israel, só restaria um pequeno remanescente do povo. N ano 722 a.C., a Assíria cercou Samaria, incendiou seus palácios, destruiu suas casas, passou ao fio da espada milhares de israelitas, deportou outros tantos e trouxe para aquela terra cativos de outras nações, formando, assim um povo híbrido e mestiço; chamado samaritano (Jo 4.9,19-24). Amós deixou claro que a Assíria era apenas a vara da ira de Deus, castigando o seu povo por causa dos seus pecados.

O próprio Deus derrubou essas fortalezas, símbolos do luxo, da opulência, da riqueza e pretensa segurança da nação. A mão que jogou ao chão as casas de inverno, de verão, de marfim e as grandes casas foram as mãos dos soldados assírios, mas a mão que os dirigia nessa destruição era a mão onipotente de Deus.

Em terceiro lugar, Deus julgou o pecado da injustiça social da nação. Em Samaria havia tumultos e opressões (3.9). Nos castelos dos reis e dos nobres havia violência e devastação (3.10). A cidade estava cheia de transgressões (3.14). Durante dois séculos o pecado da injustiça social, da violência impune, da ganância criminosa, da riqueza ilícita, da opressão ao pobre cresceu enormemente em Israel. Os ricos por meio da violência e devastação estavam armazenando, entesourando, preservando, guardando os meios da sua própria destruição. Quando os ricos exploram os pobres, essa riqueza injusta se transforma em combustível para queimar suas próprias carnes (Tg 5.3). Os profetas de Deus tocaram a trombeta, mas o povo não atendeu a voz de Deus. Agora, o leão está rugindo. A presa será apanhada inevitavelmente. O tempo do juízo havia chegado. A sentença de condenação já estava lavrada.

Em quarto lugar, Deus julgou o pecado religioso de Israel (3.14). Betel era o santuário do rei e o templo do reino (7.13). O culto havia sido deturpado. Betel era o centro da idolatria em Israel. Era a fonte principal de suas vãs superstições. Um especial julgamento é pronunciado contra o centro religioso Betel e contra o centro político Samaria. A idolatria provoca a ira de Deus e atrai seu justo juízo.

O rei Jeroboão I numa jogada política, para afastar os seus súditos de Jerusalém e do culto no templo, estrategicamente lançou mão da religião para servir aos seus egoísticos interesses políticos. Ele fez dois bezerros de ouro e colocou um em Dã e outro em Betel e assim, o sincretismo religioso tomou conta da nação (1Rs 12.28). Ele levou o povo a confundir o visível com o Invisível. Ele identificou Deus com o bezerro, o Criador com a criatura. Na prática cananita, o bezerro era o símbolo da fertilidade. Sob a liderança de Jeroboão I o povo escolheu um caminho imoral de prosperidade. A verdade foi torcida, a revelação adaptada para encaixarem-se nos interesses inescrupulosos de um líder político e, assim, a religião foi profanada. Motyer diz que Jeroboão I foi um rebelde político (contra a casa de Davi), um cismático religioso (contra o culto de Jerusalém) e um herético teológico (contra a verdade divina). Ele foi levado pelo expediente político, mas preferiu estender a sua rebelião aos campos religioso e teológico. Era uma mistura do culto divino com práticas pagãs. A idolatria perverteu a teologia e profanou o culto. O julgamento de Deus alcança os altares de Betel. Uma religião que se desvia da verdade não tem o agrado de Deus, ao contrário está sob o seu juízo. Ninguém pode encontrar refúgio numa religião idólatra no dia da calamidade. As pontas do altar estarão cortadas. J. A. Motyer elucida esse ponto, quando escreve:

O versículo 14 reflete a suposição pagã de que se agarrar às pontas do altar dava à pessoa (não importa o que tivesse sido anteriormente) uma sacrossantidade, mas no dia em que esse asilo for mais dolorosamente necessário, descobrirão que até esmo o imaginado refúgio desapareceu: o altar está sem pontas. Com um toque, o mais caprichado possível, Amós denuncia todo o fracasso da religião do povo na proteção contra o desastre. Se traduzirmos Betel, no versículo 14, teremos a seguinte seqüência interessante: “… casa de Deus… casa de inverno… casa de verão… casas de marfim… grandes casas…”. Onde a religião não tem poder, tudo fica sem poder; quando a casa de Deus é derrubada, nenhuma casa fica de pé.

1 Comentário

  • Jalzira Aparecida de Magalhães Braga Posted 26 de abril de 2016 15:49

    Palavra maravilhosa,muito edificante. mostra a importância da Leitura da Bíblia e de bons livros relacionados a mesma. Servir ao Senhor é muito mais sério que se possa imaginar. A Palavra CONHECER neste texto tem um sentido muito forte, Deus nos conhece e também todas as hipocrisias do crente.
    Que tomemos tento, e lutemos em proclamar e obedecer a Cristo. Que Deus o abençoe.

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