Uma oração transbordante de amor

1. Paulo está preso, mas a Palavra não está algemada

Paulo é prisioneiro de Cristo e não de César. Sua agenda é dirigida por Deus e não pelos homens. As circunstâncias podem estar fora do seu controle, mas jamais fora do controle de Deus. Os homens podem colocar algemas nele, mas jamais aprisionar a Palavra de Deus. Paulo está preso, mas a Palavra está livre. Paulo tem limitações geográficas, mas a Palavra tem livre curso nos corações.

2. Paulo está impedido de ter comunhão com os irmãos, mas não de orar por eles

A oração toca o mundo. A oração desconhece limites geográficos, barreiras étnicas ou culturais. Um crente de joelhos pode influenciar o mundo inteiro. Na sua soberania Deus estabeleceu agir na história em resposta às orações do seu povo.

Paulo está impedido de viajar até Filipos, mas suas orações sobem aos céus em favor dos crentes de Filipos. Pela oração Paulo influencia e abençoa os crentes de Filipos.
Warren Wiersbe, sintetizando esse parágrafo diz que em Filipenses 1.1-11, Paulo usa três idéias que descrevem a verdadeira comunhão cristã: A presença na memória (1.3-6), a presença no coração (1.7,8) e a presença nas orações (1.9-11). Vamos examinar este texto e extrair algumas lições importantes.

I. UMA RECORDAÇÃO CHEIA DE GRATIDÃO (1.3)

1. Recordações que trazem gratidão (1.3)

Há recordações que ferem o coração, abatem o espírito, e provocam grande dor. Há reminiscências amargas e lembranças dolorosas. Há memórias que só trazem à tona a desesperança. Mas, quando Paulo volta ao passado, e se lembra da igreja de Filipos, seu peito se enche de doçura e sua alma é inundada por grande gratidão.

Na cidade de Filipos Paulo foi preso, açoitado ilegalmente com varas, jogado num calabouço, colocado no tronco e humilhado diante do povo. Mas, nessa mesma cidade, Paulo plantou uma igreja que foi a coroa da sua alegria (4.1). Nessa cidade, Paulo fundou uma igreja que se tornou a maior parceira do seu ministério. A igreja de Filipos sustentou Paulo em Tessalônica (4.15,16), em Corinto (2Co 11.9) e em Roma (4.18).

Bruce B. Barton diz que a igreja de Filipos trouxe a Paulo muita alegria e pouca dor.

2. Recordações que produzem glória ao nome de Deus (1.3)

Paulo não está grato apenas pelo que recorda, mas ele glorifica a Deus por tudo aquilo que vem à sua memória. Ele dá graças a Deus. A experiência horizontal desemboca numa doxologia vertical. Não há nenhum fato vivido na igreja que arranque lágrimas de tristeza no apóstolo, ao contrário, tudo que ele traz à sua memória, o conduz a um efusivo cântico de louvor a Deus. Certamente Paulo se lembra de como Deus abriu o coração de Lídia para ela crer e como ela depois abriu seu lar para acolher os obreiros. Certamente vem à mente de Paulo como Deus abriu as portas da prisão e como o carcereiro abriu as portas da sua casa para cuidar dele e de Silas. Em Filipos Paulo viu a mão poderosa de Deus trabalhando na igreja e através da igreja.

II. UMA INTERCESSÃO CHEIA DE ALEGRIA (1.4)

1. Uma intercessão contínua (1.4)

Paulo é um obreiro incansável. Ele vive intensamente tudo que faz. Ele está preso, mas seu coração está focado não em si ou em suas necessidades, mas na vida e necessidades de outras pessoas. Ele não ora esporadicamente, mas sem cessar, sempre, em todo tempo. Esse veterano anda antenado com o céu. Ele tem seu coração voltado para Deus e para a igreja.

As palavras “fazendo sempre […] súplicas” está no tempo presente, significando que Paulo estava orando por eles continuamente. Paulo plantou igrejas e continuou orando por essas igrejas enquanto continuou o seu ministério. Ralph Martin diz que enquanto os filipenses lembraram-se de Paulo em suas necessidades, Paulo se lembrou deles em suas orações.

2. Uma intercessão abrangente (1.4)

Ele ora por todos os crentes da igreja. Ele não se envolve apenas com uma parcela. Seu carinho não é dirigido apenas a uma elite da igreja. Ele derrama a sua alma em favor de todos os membros da igreja. Ele não faz acepção de pessoas. Paulo usa a expressão “todos vós”, referindo-se diretamente a todos os seus leitores em pelo menos nove ocasiões. Ele não deixa ninguém de fora.

3. Uma intercessão humilde (1.4)

Paulo se aproxima de Deus em todas as suas orações fazendo súplicas. Ele pede. Ele coloca as causas do povo na presença de Deus. Ele apresenta as necessidades do povo diante do trono da graça. Ele, humildemente, chega como um suplicante diante do Pai para rogar pela igreja. Quanto mais intimidade com Deus, mais humildade diante dele. Quanto mais ousadia na oração, mais dependência da graça. Nenhum homem pode conhecer a Deus e ainda permanecer altivo e soberbo. Paulo levantou-se diante de reis, porque primeiro aprendeu a curvar-se diante do Rei dos reis.

4. Uma intercessão alegre (1.4)

A carta aos Filipenses é chamada “a carta da alegria”. A alegria reflete uma vertical perspectiva acerca de Deus. Podemos sentir alegria nas provas porque sabemos que Deus está no controle. Esta epístola pode ser sintetizada em duas expressões: “eu me regozijo” e “alegrai-vos”. William Barclay alista dez razões para a alegria nesta carta:

Em primeiro lugar, a alegria da oração cristã (1.4). Esta é a alegria de levar as pessoas que amamos ante ao trono da graça de Deus.

Em segundo lugar, a alegria de ver Jesus sendo proclamado (1.18). Há grande gozo em saber que Cristo está sendo pregado em todo o mundo.

Em terceiro lugar, a alegria da fé (1.25). Se a fé cristã não é capaz de fazer um homem feliz, não há nada que possa fazê-lo.

Em quarto lugar, alegria de ver os cristãos unidos (2.2). Não há paz na igreja quando as relações humanas se rompem e o crente está em litígio contra seu irmão.

Em quinto lugar, a alegria do sofrimento por Cristo (2.17). Paulo se alegra em sofrer por Cristo, se esse sofrimento traz bênção para outras pessoas. No momento do seu martírio, ao ser queimado na estaca, Policarpo orou dizendo: “Dou-te graças Pai, porque me consideras digno desta hora”.

Em sexto lugar, a alegria do encontro com a pessoa amada (2.28). A vida está cheia de separações e sempre há gozo quando temos notícias de pessoas que amamos. Os crentes de Filipos seriam banhados pelo óleo da alegria ao receberem de volta Epafrodito.

Em sétimo lugar, a alegria da hospitalidade cristã (2.29). Há lares de portas fechadas e lares de portas abertas. É maravilhoso ter uma porta aberta onde você sabe que jamais será rechaçado.

Em oitavo lugar, a alegria de se estar em Cristo (3.1). Estar em Cristo é viver em sua presença como o pássaro no ar, como peixe na água e como as raízes da árvore na terra.

Em nono lugar, a alegria de ter ganhado uma alma para Cristo (4.1). Para o cristão, a evangelização não é um dever, mas uma alegria.

Em décimo lugar, a alegria na dádiva recebida (4.10). Ser alvo da generosidade de outrem é um motivo de grande alegria.

III. UM AGRADECIMENTO CHEIO DE ENTUSIASMO (1.5-8)

1. Pela cooperação no evangelho (1.5)

Os cristãos são participantes na obra do evangelho. Não só participam de um dom (graça), mas também de uma tarefa que é a promoção do evangelho. Algumas verdades podem ser aqui destacadas:

Em primeiro lugar, o que é ser um cooperador no evangelho? Embora Deus é aquele que realiza todas as coisas com respeito à salvação do pecador, somos seus cooperadores nessa bendita obra. É Deus quem abre o coração, mas é a igreja que prega a Palavra. É Deus quem levanta os obreiros, mas é a igreja que os sustenta. É Deus quem dirige a agenda missionária da igreja, mas é a igreja que dá suporte aos missionários.

A palavra usada por Paulo aqui é koinonia, dando a idéia de que os filipenses eram cooperadores no evangelho através das generosas e importantes contribuições ao ministério de Paulo a fim de que a mensagem do evangelho fosse espalhada. Os filipenses não apenas aplaudiram os esforços de Paulo na divulgação do evangelho, eles se envolveram em seu ministério através da comunhão com ele e através do suporte financeiro a ele.

Ralph Martin esclarece que koinonia, em Paulo, nunca se refere a um jugo que une os crentes, mas, refere-se à participação num assunto, isenta de experiência subjetiva, uma “realidade objetiva”, como ele a denomina. Os filipenses haviam repetidamente mostrado interesse pelo evangelho, através de sua contínua ajuda a Paulo.

Em segundo lugar, como a igreja tornou-se cooperadora no evangelho? A igreja de Filipos não apenas permaneceu firme e fiel, apesar da pobreza e da perseguição, mas jamais perdeu a doçura nem jamais perdeu o amor pelos obreiros e pelos demais irmãos, ainda mesmo por aqueles que jamais viram (2Co 8.1-4).

Em terceiro lugar, quando a igreja tornou-se cooperadora no evangelho? Paulo diz: “… desde o primeiro dia até agora”. A igreja acolheu Paulo no seu início, através da casa de Lídia. A igreja socorreu Paulo no começo do seu ministério em Tessalônica (4.15,16). A igreja sustentou Paulo em Corinto (2Co 11.9). A igreja sustentou Paulo em Roma (4.18).

2. Pela segurança da salvação (1.6)

J. A. Motyer entende que a segurança da salvação é o tema central de toda esta passagem, desde o versículo três.6 Destacamos cinco verdades importantes:

Em primeiro lugar, a convicção da salvação. Paulo diz: “Estou plenamente certo…”. Esta não é uma questão da possibilidade hipotética, mas da certeza experimental. Paulo não tem um vago sugestionamento acerca da segurança da salvação, mas uma convicção inabalável. Nada nesta vida nem depois da morte pode interromper ou frustrar a obra de Deus em nós (Rm 8.26-39).

Em segundo lugar, o agente da salvação. O apóstolo afirma: “Aquele que começou boa obra em vós…”. Ele aponta Deus como o agente da salvação. A salvação é uma obra exclusiva de Deus. Foi Deus quem planejou a salvação. É Deus quem escolhe, quem abre o coração, quem chama, quem regenera, quem dá o arrependimento para a vida, quem dá a fé salvadora, quem justifica, quem santifica e quem glorifica.

Em terceiro lugar, a natureza da salvação. Paulo define a salvação como “boa obra” de Deus em nós. A salvação não é apenas algo que Deus realiza por nós, mas, sobretudo, em nós. Antes de nos levar para a glória, ele nos transforma à imagem do Rei da glória.

Em quarto lugar, a dinâmica da salvação. O mesmo Deus que começou esta boa obra em nós, vai completá-la. Deus jamais deixou uma obra inacabada. Ele jamais deixou um projeto no meio do caminho. Nossa salvação ainda não está acabada em nós. Deus ainda está trabalhando em nós. Quanto à justificação, já fomos salvos. Com respeito à santificação, estamos sendo salvos. Mas, com respeito à glorificação, seremos salvos.

William Barclay diz que há aqui na linguagem grega uma figura que não é possível reproduzir na tradução. O problema está nas palavras que Paulo usa para começar (enarquesthai) e para completar (epitelein); ambos são termos técnicos para indicar o começo e o final de um sacrifício. Assim, Paulo considera a vida de cada cristão como um sacrifício preparado para oferecer-se a Jesus Cristo na sua gloriosa vinda. Esse verbo grego usado aqui tem a idéia de “inaugurar” e o tempo verbal usado acentua um ato decisivo e deliberado, mostrando que a nossa salvação foi planejada e executada por Deus com vistas à perfeição. Isso pode ser ilustrado através da conversão de Lídia. Não foi ela quem simplesmente pôs sua confiança em Cristo, mas foi Deus quem lhe abriu o coração para crer em Cristo. A salvação é uma obra inaugurada pelo próprio Deus.

Em quinto lugar, a consumação da salvação. Esta obra de Deus em nós caminha para uma consumação, que se dará no dia de Cristo Jesus. Deus jamais desiste de nós. Ele jamais deixará esta obra incompleta. Os que ele conheceu de antemão, os predestinou; aos que predestinou, também chamou; aos que chamou, também justificou e aos que justificou, também glorificou. A perseverança da salvação depende de Deus. Porque ele não pode mentir e suas promessas são fiéis e verdadeiras, podemos ter a garantia que nossa salvação não é apenas uma vaga possibilidade, mas uma certeza inabalável. Na mente e nos decretos de Deus, nossa salvação já está consumada (Rm 8.30). Aqui ainda gememos sob o peso do pecado. Aqui ainda vivemos num corpo de fraqueza. Aqui ainda somos um ser ambíguo e contraditório. Aqui ainda tropeçamos em muitas coisas. Mas, quando Cristo voltar em glória, seremos transformados. A volta de Jesus e a consumação final da nossa salvação são uma agenda firmada pelo Pai e ele a levará a bom termo. Então, teremos um corpo de glória, semelhante ao corpo de Cristo e, não haverá mais dor, nem pranto, nem morte. Werner de Boor descreve essa consumação da nossa salvação, como segue:

Deus não é alguém que começa uma boa obra e a abandona no meio do caminho. A trajetória não vai rumo a uma história incerta, cujo alvo e desfecho se perde na névoa. A história do mundo possui um alvo claro: o dia de Deus! A história da igreja possui um alvo claro: o dia de Cristo! A igreja, então, estará ressuscitada, arrebatada, presenteada com um novo corpo, unida para sempre como o cabeça e vivendo na união de seus membros, ela estará aperfeiçoada.

A segurança de Paulo em relação aos crentes de Filipos deve-se ao fato de eles serem fruto da obra de Deus. Se há alguma coisa digna de louvor neles, Deus é o seu autor. No versículo seis, Paulo os vê como uma obra de Deus iniciada, continuada e completada. No versículo sete, eles produzem fruto porque são participantes da graça de Deus. Deus está trabalhando neles e onde Deus trabalha, ele certamente completa a obra.

3. Pela estreita relação fraternal (1.7,8)

Paulo destaca três coisas aqui:

Em primeiro lugar, Paulo os traz no coração (1.7,8). Paulo traz os crentes de Filipos no coração de três maneiras:

Primeiro, no sofrimento pelo evangelho, ou seja, nas algemas. Essa igreja, como nenhuma outra, foi solidária a Paulo em suas prisões. Ela foi um bálsamo para o velho apóstolo nas suas horas mais difíceis.

Segundo, na obra do evangelho, ou seja, na defesa e confirmação do evangelho. Paulo foi tanto um apologeta como um missionário. Ele anunciava a verdade e a defendia diante dos ataques dos heréticos. A defesa (apologia) do evangelho se refere aos ataques que vêm de fora: os argumentos e os assaltos dos inimigos do cristianismo. O cristão deve estar disposto a ser um defensor da fé e a dar razões da esperança que possui (2Co 7.11). A confirmação (bebaiosis) do evangelho consiste na edificação que se opera por sua força aos que estão dentro da igreja.

Terceiro, na compaixão de Cristo (1.8). William Barclay diz que no versículo oito Paulo usa uma expressão muito gráfica: “a saudade que tenho de vós, na terna misericórdia de Cristo Jesus”. A palavra grega para saudade é splagcna. Este termo define as entranhas superiores, o coração, o fígado e os pulmões. Os gregos colocavam aqui o centro das emoções e dos afetos. Assim, o que Paulo está dizendo é que suspira pelos crentes de Filipos com a mesma compaixão de Jesus Cristo. Ele os ama como Jesus os ama. O amor que Paulo sente pelos filipenses não é outro senão o mesmo amor de Cristo. O crente não tem outro sentimento que não os de Cristo; seu pulso bate com o pulso de Cristo; seu coração palpita com o coração de Cristo. O amor de Cristo passa por nós aos nossos irmãos. Nessa mesma linha de pensamento Bruce B. Barton diz que a afeição de Paulo pelos filipenses era tão forte que era mais profunda do que mera emoção humana; era como a própria afeição de Cristo através dele. A palavra “saudade” ou “afeição” usada por Paulo é a tradução literal de “vísceras”. Isso fala de fortes sentimentos íntimos, que brota das entranhas.

Em segundo lugar, Paulo os traz na mente (1.3,8). A recordação é uma faculdade da memória. Esses crentes povoavam a mente de Paulo. Eles moravam na mente do veterano apóstolo. Paulo sente saudade desses irmãos com tamanha intensidade que ele chega a dizer que ele os ama com o coração de Cristo. A palavra grega traduzida por “pense” no versículo 7, (phronein) é usada por Paulo vinte e três vezes nesta carta. Esta palavra significa mais do que simplesmente afeição ou reação emocional; ela vai mais fundo, mostrando uma especial preocupação, baseada nos melhores interesses das outras pessoas. Esses crentes de Filipos tinham um lugar especial no coração de Paulo.14 Nessa mesma linha de pensamento Ralph Martin diz que phronein significa uma combinação de atividades intelectuais e afetivas, que toca tanto a mente como o coração, e conduz a uma ação positiva.

Em terceiro lugar, Paulo os traz nas orações (1.4,9). Quem ama, ora. A forma mais efusiva de demonstrar amor por alguém é interceder por ele. Paulo jamais esteve tão ocupado a ponto de não poder se dedicar à oração. Ele nunca esteve tão ocupado com a igreja a ponto de não tempo para Deus. Ele jamais esteve tão envolvido com a terra, a ponto de não ter tempo para o céu. Paulo nunca separou o ministério de pregação do ministério de intercessão.

IV. UMA ORAÇÃO CHEIA DE FERVOR (1.9-12)

J. A. Motyer diz que esta oração de Paulo é, sobretudo, uma oração por crescimento.16 Destacamos alguns pontos importantes dessa oração de Paulo.

1. Amor, mais amor (1.9)

Paulo não escreve aos filipenses como a um povo que tem falta de amor e precisa rogar por ele, mas como um povo que possui amor e precisa fazê-lo crescer. Tão logo Lídia tornou-se cristã, ela abriu sua casa para o apóstolo Paulo. Tão logo o carcereiro de Filipos foi convertido, ele tratou de Paulo e abriu-lhe sua casa. Quando precisou sair de Filipos, aquela igreja logo se envolveu com Paulo no sentido de sustentá-lo e isso ela o fez ao longo do ministério do veterano apóstolo. Em nossa condição de cristãos há algo capaz de crescer sem limites: o amor.

É digno de nota que Paulo não pede prosperidade, uma vez que eles eram pobres nem pede livramento, uma vez que eles eram perseguidos, mas pede que eles avancem na escalada do amor. Não há limites para o crescimento do amor.

2. De que maneira cresce o amor? (1.9b)

Quando nós perguntamos em que caminhos o amor pode crescer mais e mais, a resposta é que o crescimento do amor é controlado e dirigido pelo conhecimento e discernimento. Werner de Boor afirma que ágape, o amor na afeição de Cristo, interessa-se realmente pelo outro, deseja ajudá-lo, levá-lo ao alvo. Por isso esse amor precisa de “conhecimento”, de percepção clara da natureza e da situação do outro, percepção clara dos meios pelos quais de fato se pode ajudá-lo exterior e interiormente.

J. A. Motyer diz que a palavra traduzida por “conhecimento” (epignósis) ocorre vinte e uma vezes no Novo Testamento, sempre se referindo ao conhecimento das coisas de Deus, ou seja, é um conhecimento religioso, espiritual, e teológico. Segundo Motyer esse conhecimento tem quatro aspectos: Primeiro, este conhecimento é o meio da salvação, pois salvação é descrita como “conhecer a verdade” (1Tm 2.4; 2Tm 2.25; Hb 10.26). Segundo, o conhecimento é uma marca do próprio cristão (1Pe 1.2). Terceiro, o conhecimento é uma das evidências do crescimento cristão (Cl 1.10; 2.2; 3.1-10; 2Pe 1.8). Quarto, o conhecimento é o estado do cristão que atingiu a plena maturidade (Ef 4.13).

O amor não é cego nem apenas um sentimento. Ele deve aumentar em pleno conhecimento e toda a percepção. William Barclay diz que o amor é sempre o caminho do conhecimento. Quando amamos algo desejamos saber cada vez mais acerca dele; se amarmos a uma pessoa, desejaremos saber cada vez mais acerca dela. Se amarmos a Jesus, desejaremos conhecê-lo mais e mais. O amor não é um sentimentalismo piegas, mas uma atitude nutrida pelo conhecimento e percepção.

J. A. Motyer sintetiza esse ponto, assim:

Nós crescemos na proporção em que conhecemos. Sem conhecimento da salvação não haverá progresso rumo à maturidade. Se não conhecermos o Senhor, como poderemos amá-lo? Porém, quanto mais o conhecemos, mais o amamos […] A verdade é um ingrediente essencial na experiência cristã. Sendo assim, todo cristão deve ser um estudante, pois para ser um cristão é preciso conhecer a verdade. Crescer como um cristão é crescer na verdade. Nada impede tanto o crescimento como a ignorância.

3. Para que o amor deve crescer? (1.10)

Paulo lista três razões pelas quais o amor deve crescer em todo conhecimento e percepção.

Em primeiro lugar, para os crentes aprovarem as coisas excelentes. O discernimento deve levar os crentes a escolherem as coisas boas e a rejeitarem as más. A palavra que Paulo usa para provar (dokimazein) é um termo para provar o metal ou a moeda, com o fim de verificar que é genuíno, puro, sem mescla nem falsificação. Ralph Martin diz que esse verbo provar significa “pôr sob teste” (1Ts 5.21) e depois “aceitar quando testado”, ou “aprovar”. Como termo comercial, era usado para denotar o teste de moedas. As que eram “aprovadas” eram dinheiro genuíno, não-falsificado.

Em segundo lugar, para os crentes serem sinceros e inculpáveis. Um amor maduro desemboca em sinceridade e inculpabilidade. Se sinceridade tem a ver como a vida íntima, a inculpabilidade tem a ver com a vida pública. Paulo usa um termo grego muito sugestivo aqui para descrever a palavra “sincero”. A palavra eilikrines usada por Paulo pode significar duas coisas. Pode provir de eile que significa “luz solar” e krinein que significa “julgar”. A combinação dos termos descreve o que é capaz de passar pela prova da luz solar; o que pode ser exposto ao sol, sem que apareça falta alguma. Mas, eilikrines pode derivar-se de eilein que significa “girar rapidamente como quando se move uma peneira para tirar as impurezas”. O ato de “girar em uma peneira” sugere a idéia de separar a palha do trigo. Se este é o significado, então isso significa que o cristão está puro, isento de toda contaminação. Ralph Martin diz que essa palavra eilikrines denota pureza moral, não ritual. Warren Wiersbe diz que o cristão sincero não tem medo de ser exposto à luz. Na língua portuguesa, o adjetivo “sincero” vem do latim sinceru, que significa “sem mistura, não adulterado, puro”.

A palavra que Paulo usa para “inculpáveis” é aproskopos, dando a idéia de que o cristão jamais se converte em causa de tropeço para outra pessoa. Assim, o cristão é em si mesmo puro, mas com um amor e uma bondade de tal índole que atrai os demais à vida cristã e jamais causa repulsa.

Em terceiro lugar, para os crentes estarem preparados para a segunda vinda de Cristo. Devemos viver hoje como se Cristo fosse voltar amanhã. Vivemos à luz da eternidade. A esperança da segunda vinda de Cristo nos motiva à santidade. Werner de Boor diz que no Novo Testamento esse futuro é o elemento decisivo ao qual se volta todo o pensar e agir. A atualidade sempre é apenas “caminho”, inteiramente determinado pelo alvo. O esperado “dia de Cristo” virá, e a relevância total então será que a igreja seja “pura e decorosa”. No entanto, para sê-lo então, já precisa sê-lo agora.

4. Como o amor deve se manifestar? (1.11)

Estamos a caminho do céu para prestarmos contas da nossa vida e não devemos comparecer diante de Cristo de mãos vazias, mas devemos nos apresentar a ele cheios do fruto de justiça. De forma alguma Paulo vê, naquele dia, a igreja pobre e de mãos vazias diante de Cristo, mas “cheia do fruto da justiça”. A palavra justiça é tomada aqui no sentido de justiça prática, interna, e não no de justificação.

5. Qual é a fonte do fruto de justiça? (1.11b)

O fruto de justiça é por meio de Jesus Cristo. Não produzimos frutos por nós mesmos. O fruto não é produção própria da igreja. A seiva que nos faz frutificar é Cristo. Dele vem a força e o poder. O que existe de bom em nós é obra de Cristo em nós.

6. Qual é o propósito final da apresentação do fruto de justiça no dia de Cristo? (1.11c)

O propósito final da vida do cristão é a glória e o louvor de Deus. Tudo vem dele, por meio dele e para ele. Deus é o fim último de todas as coisas. O cristão não é bom porque pretende ganhar louvor, crédito, honra e prestígio para si mesmo, senão para Deus.

J. A. Motyer conclui o comentário desta sublime oração de Paulo, dizendo que o Pai (no versículo seis) está incessantemente trabalhando para a glória do Filho; o Filho (no versículo 11) está incessantemente trabalhando para a glória do Pai.

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