Organização da primeira igreja cristã da europa

Referência: Atos 16.6-40

INTRODUÇÃO

1. O programa missionário da igreja deve ser conduzido pelo céu e não pela terra
O apóstolo Paulo estava a caminho da sua segunda viagem missionária, com Silas, Timóteo e Lucas com o propósito de abrir novos campos e plantar novas igrejas. Paulo tinha um plano ousado para evangelizar a Ásia, mas aprouve a Deus mudar o rumo da sua jornada e direcioná-lo para a Europa. A agenda missionária da igreja deve ser dirigida por Deus e não pelos obreiros, deve ser definida no céu e não na terra. Paulo abriu mão do seu projeto e abraçou o projeto de Deus e igreja entrou na Europa.

2. A porta que Deus abre nem sempre nos conduz por um caminho fácil, mas para um destino vitorioso

Deu apontou o caminho missionário para onde os plantadores deveriam ir, deu-lhes sucesso na missão, mas não sem dor, sem sofrimento ou sem sangue. O sofrimento não é incompatível com o sucesso da obra. Muitas vezes, o solo fértil da evangelização é regado pelas lágrimas, suor e sangue daqueles que proclamam as boas novas do evangelho.

Paulo e Silas foram açoitados e presos em Filipos, mas o mesmo Deus que abriu o coração de Lídia também abriu as portas da cadeia libertando os seus servos.

I. FILIPOS, A PORTA DE ENTRADA DO EVANGELHO NA EUROPA

Este episódio é um divisor de águas na história do mundo. É uma decisão insondável e soberana de Deus de embocar a obra missionária para o Ocidente e não para o Oriente. A história das civilizações ocidentais foi decisivamente influenciada por esta escolha divina. Até hoje as nações orientais estão imersas em trevas enquanto o Ocidente foi bafejado por esta mensagem bendita desde priscas eras.

O desejo de Paulo era entrar na Ásia. Sua agenda missionária o levava para outras paragens. Porém, Deus o redirecionou, mudou sua agenda, sua rota, seu itinerário e, assim, a Europa e não a Ásia torna-se o palco dessa grande empreitada evangelizadora de Paulo. Esta foi a primeira e principal penetração do evangelho em território gentio.

II. A IMPORTÂNCIA ESTRATÉGICA DA CIDADE DE FILIPOS PARA SE PLANTAR UMA IGREJA

1. A importância dos melhores métodos
Deus apontou o rumo, deu a mensagem e Paulo adotou os melhores métodos. Paulo era um homem que enxergava sobre os ombros dos gigantes. Ele tinha a visão do farol alto. Ele um missionário estratégico. Ele era íntegro e também relevante. Ele jamais ousou mudar a mensagem, mas sempre teve coragem para usar os melhores métodos.

Paulo se concentrava em lugares estratégicos. Ele era um plantador de igreja que tinha critérios claros para fazer investimentos. Passava batido em determinadas regiões e fixava-se em outras e isso não aleatoriamente. Ele buscava sempre alcançar cidades estratégicas que pudessem irradiar a mensagem do evangelho. A questão é: por que Paulo escolheu Filipos?

2. A localização geográfica da cidade
Filipos era uma cidade estratégica pela sua geografia. Ela ficava entre o Oriente e o Ocidente. Era a ponte de conexão entre os dois continentes. William Barclay diz que Filipe da Macedônia fundou a cidade que leva seu nome por uma razão muito particular. Em toda a Europa não existia um lugar mais estratégico. Há aqui uma cadeia montanhosa que divide Europa da Ásia, o Oriente do Ocidente. Assim, Filipos domina a rota de Ásia a Europa. Filipe fundou essa cidade para dominar a rota do Oriente ao Ocidente. Alcançar Filipos era abrir caminhos para a evangelização de outras nações. A evangelização e a plantação de novas igrejas exige cuidado, critério e planejamento. Precisamos usar de forma mais racional e inteligente os obreiros de Deus e os recursos de Deus.

A cidade de Filipos era chamada de Krenides, fontes, um lugar com abundantes fontes e ribeiros, cujo solo era fértil e rico em prata e ouro, explorados desde a antiga época dos fenícios. Mesmo que na época de Paulo estas minas já estavam exauridas, isso fez da cidade um importante centro comercial do mundo antigo, atraindo, assim, pessoas de diversas partes do mundo.

3. A importância histórica da cidade
Vários fatores históricos importantes podem ser aqui destacados:

Em primeiro lugar, o fundador da cidade. Filipos era o cenário de importantes acontecimentos, mundialmente conhecidos. Essa cidade foi fundada por Filipe, pai do grande imperador Alexandre Magno, de quem recebeu o nome. Filipe da Macedônia capturou a cidade dos Tracianos por volta de 360 a.C.

Em segundo lugar, a fundamental batalha travada na cidade. Filipos foi palco de uma das mais importantes batalhas travadas em toda a história do Império Romano, quando o exército leal ao imperador assassinado Julio César, lutou sob o comando de Otávio (mais tarde o imperador Augusto) e Marco Antonio e derrotou as forças rebeldes de Brutus e Cássius. Foi por causa deste auspicioso evento que a dignidade de colônia foi conferida à cidade de Filipos. Os destinos do Império foram decididos nessa cidade.

Em terceiro lugar, Filipos é feita Colônia Romana. Filipos foi elevada à honrada posição de Colônia Romana. Estas colônias eram instituições admiráveis. Elas tinham grande importância militar. Roma tinha o costume de enviar grupos de soldados veteranos que haviam cumprido seu período e merecido a cidadania; estes eram levados a centros estratégicos de rotas importantes. Estas colônias eram os pontos focais dos caminhos do grande Império. Os caminhos haviam sido traçados de tal maneira que podiam ser enviados reforços com toda rapidez de uma colônia a outra, as quais se estabeleciam para salvaguardar a paz e dominar os centros estratégicos mais distantes do vasto Império Romano. Filipos tornou-se uma espécie de Roma em miniatura. O imperador Augusto conferindo o ius Italicum a Filipos conferiu aos seus cidadãos os mesmos privilégios daqueles que viviam na Itália, ou seja, o privilégio de propriedade, transferência de terras, pagamento de taxas, administração e lei.
Nessas colônias se falava o idioma de Roma, se usavam vestimentas romanas, se observavam os costumes romanos. Seus magistrados tinham títulos romanos e observavam as mesmas cerimônias que em Roma. Eram partes de Roma, miniaturas da cidade de Roma.

III. O PODER DO EVANGELHO NA FORMAÇÃO DA IGREJA DE FILIPOS

J. A. Motyer diz que a plantação da igreja de Filipos mostra três coisas importantes: do ponto de vista humano, a igreja nasceu com oração, pregação e compromisso sacrificial com a obra de Deus. Do outro ponto de vista, a plantação da igreja é uma obra de Deus. É Deus quem abre o coração, liberta o cativo e abre as portas da prisão e as recâmaras da alma. Finalemente, a plantação da igreja tem a ver com batalha espiritual. É um confronto direto às forças ocultas das trevas. A primeira igreja estabelecida na Europa, na colônia romana de Filipos, revela-nos o poder do evangelho em alcançar pessoas de raças diferentes, de contextos sociais diferentes, com experiências religiosas diferentes, dando a elas uma nova vida em Cristo. Destacamos alguns pontos aqui:

1. O evangelho chega até as pessoas pela graça soberana de Deus

Atos 16.10-34 fala sobre a conversão de três pessoas totalmente diferentes umas das outras em Filipos, um verdadeiro retrato da eficácia do evangelho em transformar vidas.

Em primeiro lugar, a conversão de Lídia (At 16.13,14). É Deus quem toma a iniciativa na conversão de Lídia. É Deus quem abre o coração de Lídia. Não apenas Lídia é convertida, mas toda a sua casa (6.15). E não apenas sua família é batizada, mas sua casa se transforma na sede da primeira igreja da Europa (At 16.40)

Em segundo lugar, a libertação da jovem possessa (16.16-18). Ela era possuída por um espírito de pitonisa e adivinhação. Era escrava tanto do diabo como dos homens. É Deus também quem toma a iniciativa na sua libertação e conversão.

Em terceiro lugar, a conversão do carcereiro (At 16.27-34). Três milagres aconteceram na conversão desse oficial romano: 1) Milagre Físico – Terremoto; 2) Milagre Moral – Todos nós estamos aqui; 3) Milagre Espiritual – Deus mudou a vida dele. A conversão do carcereiro desembocou na salvação de toda a sua família (At 16.33). O evangelho começa não apenas alcançando pessoas, mas famílias inteiras.

2. O evangelho vem a todo tipo de pessoas
Destacamos aqui alguns pontos importantes:
Em primeiro lugar, Deus salva na cidade de Filipos três raças diferentes. Lídia era asiática, da cidade de Tiatira; a jovem escrava era grega; o carcereiro era cidadão romano. A igreja de Filipos era multicultural e multiracial.

Em segundo lugar, Deus salva na cidade de Filipos três classes sociais. Na igreja de Filipos temos não apenas três diferentes nacionalidades, mas também três bem diferentes da sociedade: Lídia era uma empresária bem sucedida, uma mercadora, comerciante de púrpura, uma das mercadorias mais caras do mundo antigo; a jovem possessa era uma escrava e ante a lei não era uma pessoa, mas uma ferramenta viva; o carcereiro era um cidadão romano, um membro da forte classe média romana que se ocupava dos serviços civis. Nessas três pessoas estavam representados a classe alta, a classe média e classe baixa da sociedade de Filipos. William Barclay diz que não há nenhum outro capítulo na Bíblia que mostre tão bem o caráter universal da fé que Jesus trouxe aos homens.

Em terceiro lugar, Deus salva na cidade de Filipos pessoas de culturas religiosas diferentes. 1) Lídia era prosélita, uma gentia que vivia a cultura religiosa piedosa dos judeus; 2) A escrava vivia no misticismo mais tosco, comprometida com os demônios, possessa; 3) O carcereiro acreditava que César era o Senhor.

A salvação alcança a todos os tipos de pessoas. Deus salva pessoas de de lugares diferentes, de raças diferentes, de culturas diferentes e religiões diferentes. As paredes que dividem as pessoas são quebradas. Pobres e ricos, religiosos e místicos, ateus e possessos podem ser alcançados com o evangelho. Jesus é o único salvador.

3. O evangelho vem a nós com diferentes experiências transformadoras
Destacamos três pontos importantes:

Em primeiro lugar, Lídia já era uma mulher piedosa. O evangelho a alcança de forma calma e serena. Enquanto ela estava numa reunião de oração e ouviu a Palavra de Deus, Deus abriu o seu coração.

Em segundo lugar, a jovem escrava era prisioneira de Satanás. O evangelho a alcançou enquanto ela estava nas garras do diabo. Ela era um capacho nas mãos dos demônios. Ela era explorada por demônios e pelos homens. Foi uma experiência dramática, bombástica. O diabo estava escravizando aquela jovem. Ele é assassino, ladrão, venenoso como uma serpente, traiçoeiro como uma víbora, feroz como um leão, perigoso como um dragão. O diabo é o pai da mentira. Ele é estelionatário: promete liberdade e escraviza. Promete prazer e dá desgosto. Promete vida e paga com a morte.

O diabo veio roubar, matar e destruir. Ele é sujo, é cruel. Ele escraviza pessoas. Ele destrói famílias. Ele aterroriza e atormenta as suas vítimas. Ele atacou Jó e arruinou com os seus bens, com os seus filhos, com sua saúde. Ele atacou Davi e colocando orgulho em seu coração para recensear o povo de Israel. Ele atacou Judas com ganância. Ele atacou Ananias e Safira com avareza. Ele atacou o Gadareno com loucura.

O diabo possuiu essa jovem, dando-lhe a clarividência, espírito de adivinhação. Ela adivinhava pelo poder dos demônios. O diabo falava pela boca dela. As coisas do diabo parecem funcionar. A moça adivinhava mesmo. Os donos ganhavam dinheiro mesmo. Muita gente teve lucro com o misticismo daquela escrava. O diabo enriquece, mas rouba a alma. O diabo oferece prazeres, mas destrói a pessoa depois.
Paulo não aceitou o testemunho dos demônios nem conversou com os demônios. Hoje os demônios falam e têm até o microfone nas igrejas. Paulo libertou aquela escrava do poder demoníaco. O diabo mantém muitas pessoas no cativeiro hoje também. Mas quando o evangelho chega, os cativos são libertos.

Em terceiro lugar, o carcereiro era adepto da religião do Estado. O evangelho o alcançou no meio de um terremoto, à beira do suicídio. Deus nos salva de formas diferentes. Por isso não podemos transformar a nossa experiência em modelo para os outros. Embora todas essas três pessoas tiveram experiências genuínas, cada uma delas teve uma experiência distinta. Todas elas se arrependeram. Todas elas foram transformadas.

Martyn Lloyd Jones cria uma parábola interessante de dois cegos curados por Jesus contando um para o outro a sua experiência de cura: Um disse que Jesus passou cuspe no seu olho. O outro disse: Não, então, não foi Jesus. Ele não fez nada disso comigo. O resultado é que surgiram duas denominações: a religião da cura com cuspe e a religião da cura sem cuspe.

Ilustração: Chamando os três crentes de Filipos para dar um testemunho da sua conversão.

4. O evangelho é poderoso para salvar aqueles que se arrependem
Jesus salvou uma mulher e um homem. Uma mulher e um homem de classe média. Uma mulher piedosa e um homem carrasco. Uma frequentadora da reunião de oração e um carrasco que açoitava os prisioneiros.

Em primeiro lugar, vejamos a conversão de Lídia. A conversão dessa comerciante de Tiatira nos ensina três coisas:

Primeiro, ela era temente a Deus, uma mulher de oração, mas não era convertida. Não basta frequentar a igreja, ler a bíblia e orar. É preciso nascer de novo.

Segundo, Deus abriu o coração de Lídia. Ela ouviu. Ela atendeu. A parte de Deus é abrir seu coração. A sua parte é ouvir e atender!

Terceiro, a conversão de Lídia aconteceu num lugar favorável. Ela buscava a Deus. O carcereiro não procurava. Ela estava orando; o carcereiro estava à beira do suicídio.

Em segundo lugar, vejamos a conversão do carcereiro. A conversão desse funcionário público de Roma nos mostram algumas coisas importantes:

Primeiro, há pessoas que só são convertidas depois de um terremoto. Só depois de um abalo sísmico. Há aqueles que não ouvem a voz suave. Não buscam uma reunião de oração. Não procuram ouvir a Palavra de Deus. Para estes Deus produz um terremoto, um acidente, uma enfermidade, algo radical!

Segundo, o mesmo Deus que abriu o coração de Lídia, abriu as portas da prisão. O carcereiro à beira do suicídio reconhece quatro coisas: 1) Que está perdido – “Que farei para ser salvo?” Não há esperança para você a menos que reconheça que está perdido. Sem Cristo você cambaleia sobre um abismo de trevas eternas. Se você não se converter sua vida é vã, sua fé é vã, sua religião é vã, sua esperança é falsa. 2) Que é preciso crer no Senhor Jesus – “Crê no Senhor Jesus e serás salvo, tu e a tua casa”. Não há outro caminho. Não basta ser religioso. Não é suficiente ter pais crentes. Não importa também quão longe você esteja. Se você crer, você salvo. 3) É preciso obediência – “Crê no SENHOR Jesus”. Se Jesus não é o dono da sua vida, ele ainda não é o seu salvador. Ele não nos salva no pecado, mas do pecado. 4) É preciso dar provas de transformação. Conversão implica em mudança no ponto nevrálgico da nossa vida: Zaqueu, o pródigo, o carcereiro. Esse homem rude deixe de ser carrasco para ser hospitaleiro. Deixar de açoitar, para lavar os vergões de Paulo. Deixa de agir com crueldade para agir com urbanidade.

5. O evangelho é poderoso para nos sustentar nas provas da vida
Paulo e Silas são presos, açoitados, e trancados no cárcere interior. Mas eles não praguejam, não se desperam, não se revoltam contra Deus. Eles têm paz no vale. Em vez de clamar vingança contra os seus inimigos, eles clamam pelo nome de Deus para adorá-lo.

Eles fazem um culto na cadeia. Ele cantam e oram a despeito das circunstâncias. O evangelho que pregam aos outros funciona também em suas vidas. Eles sabem que Deus está no controle da situação.

Eles experimentam um poderoso livramento. Deus não apenas liberta os cativos das mãos do diabo, mas também os seus filhos das prisões. Ele tirou José da Cadeia e o levou ao trono do Egito. Tirou os três jovens hebreus da fornalha acesa. Tirou Daniel da cova das leões. Tirou os apóstolos das grades deixando as portas fechadas. Tirou Pedro da prisão de segurança máxima de Herodes. Agora tira Paulo e Silas do cárcere interior da prisão de Filipos. Assim, Deus pode dar livramento a você também nesta noite.

IV. AS PECULIARIDADES DA CARTA ENVIADA À IGREJA DE FILIPOS

A carta à igreja de Filipos é considerada a carta mais bela do Novo Testamento. Ela transborda de alegria, generosidade e entusiasmo. Queremos destacar alguns pontos importantes.

1. O autor da Carta
O apóstolo Paulo, corajoso missionário, ilutrado mestre, articulado apologista, estadista cristão, e fundador da igreja de Filipos é o remente da carta.
Há abundantes evidências internas e externas que provam conclusivamente que Paulo foi o autor dessa carta. Os pais da igreja primitiva Policarpo, Irineu, Clemente de Alexandria, Eusébio e outros afirmam a autoria paulina desta carta.

Ele recebeu uma refinada educação secular e religiosa (At 22.3). Ele era um líder do Judaísmo em Jerusalém. Era um fariseu, ilustre membro do sinédrio, que deu seu voto para matar alguns seguidores de Cristo (At 26.5,10). Convertido a Cristo, foi destinado como apóstolo aos gentios. Foi enviado pela igreja de Antioquia como missionário transcultural e na sua segunda viagem missionária, esteve em Filipos, onde estabeleceu a igreja e dez anos depois, quando preso em Roma, escreveu a Carta à igreja de Filipos.

2. Onde e quando a carta foi escrita
Esta é uma carta da prisão. Paulo esteve preso três vezes: em Filipos (At 16.23), em Jerusalém e Cesária (At 21.27-23.31) e finalmente em Roma (At 28.30,31), sendo esta última em duas etapas. Há evidências abundantes de que Paulo tenha escrito esta carta de Roma, no final da sua primeira prisão. Três motivos elencamos pelos quais esta carta foi escrita de Roma: Primeiro, as demais cartas da prisão foram escritas de Roma (Éfeso, Colosenses, Filemon), onde Paulo passou mais tempo em cativeiro. Segundo, em Filipenses 1.13 Paulo menciona a guarda pretoriana (o pretório). Terceiro, em Filipenses 4.22 Paulo envia saudações daqueles “da casa de César”, todos os que fazem parte das lides domésticas do imperador. Werner de Boor afirma que quando essas três coisas: prisão, pretorianos, casa de César, convergem, não faltam muitos argumentos para tomar a decisão em favor de “Roma”.

Esta carta foi escrita no final da primeira prisão em Roma e não durante a segunda prisão, visto que Paulo tem vívida esperança de rever os filipenses (1.19,25) e ainda desfrutava de certa liberdade ao ponto de receber livremente seus visitantes (At 28.17-30). Paulo ficou preso em Roma nesta primeira prisão em torno de dois anos, aproximadamente nos anos 60 a 62 d.C. He escreveu Filipenses já no final de 61 d.C. Evidentemente esta foi a última carta escrita no período desta primeira prisão, argumenta Bruce B. Barton. Na segunda prisão em Roma, entretanto, de onde escreveu sua última carta, 2 Timóteo, Paulo estava sofrendo cadeias como um criminoso (2Tm 2.9). Ele tinha sido abandonado (2.Tm 4.10,16). Estava sentindo frio (2.Tm 4.13) e estava esperando o martírio (2Tm 4.6,7,18).

3. Porque Paulo escreveu esta carta
Paulo escreveu a carta aos Filipenses com dois propósitos em mente:

Em primeiro lugar, para agradecer à igreja de Filipos sua generosidade. Esta é uma carta de gratidão à igreja pelo seu envolvimento com o velho apóstolo em suas necessidades. Esta igreja foi a única que se associou com Paulo desde o inicínio para sustentar Paulo (4.15). Enquanto Paulo estava em Tessalônica, ele enviaram sustento para Paulo duas vezes (4.16). Enquanto Paulo estava em Corinto a igreja de Filipos o socorreu financeiramente (2Co 11.8,9). Quando Paulo foi para Jerusalém depois da sua terceira viagem missionária, aquela igreja levantou ofertas generosas e sacrificiais para atender os pobres da Judéia (2Co 8.1-5). Quando Paulo estava preso em Roma a igreja de Filipos enviou a ele Epafrodito para levar-lhe donativos e prestar-lhe assistência na prisão (4.18).

Em segundo lugar, para alertar a igreja sobre os perigos que estava enfrentando. A igreja de Filipos enfrentava dois sérios problemas: um interno e outro externo.
Primeiro, a quebra da comunhão. A desunião dos crentes era um pecado que estava atacando o coração da igreja. Era uma arma destruidora que estava roubando a eficácia da igreja diante do mundo. Ralph Martin diz que a igreja filipense sofria com problemas de presunção (2.3), de vaidosa superioridade (2.3), que induziam ao egoísmo (2.4), quebrando a koinonia, espírito de boa-vontade para com a comunidade. Essa gerava pequenas disputas (4.2) e espírito de reclamação (2.14). Havia um espírito individualista e elitista em alguns membros da igreja de Filipos que estava colocando em risco a harmonia na igreja. Havia partidarismo e vangloria. Havia falta de comunhão entre os crentes. Problemas pessoais estavam interferendo na unidade espiritual da igreja. Até mesmo duas irmãs, líderes da igreja, estavam em desacordo dentro da igreja (4.2). J. A. Motyer descreve com vivacidade a gravidade desse problema:

Nas duas principais ocasiões quando Paulo chama os crentes de Filipos à unidade (2.2; 4.2) ele introduz seu mandamento alertando os crentes sobre dois fatos or verdades sobre a igreja. Em Filipenses 2.1 Paulo os relembra que eles estão em Cristo, que o amor do Pai foi derramado sobre eles e que, pelo Espírito, a eles tem sido dado o dom da comunhão. É esta obra trinitariana que fez deles o que eles são. Viver em desarmonia em vez de estar unido é um pecado contra a obra e pessoa de Deus. Em Filipenses 4.1, não é acidentalemente que Paulo se dirige a eles duas vezes, chamando-os de “amados” e uma vez de “irmãos”. Antes de exortá-los à unidade, ele os relembra de sua posição: eles pertencem à mesma família (irmãos) em que o espírito vividor é o verdadeiro amor (amados). À luz destes fatos, a desunião é uma ofensa abominável.

Segundo, a heresia doutrinária. A igreja estava sob ataque também pelo perigo dos falsos mestres (3.2). O judaísmo e o perfeccionismo estavam atacando a igreja. Paulo os chama de adversários (1.28), inimigos da cruz de Cristo (3.17). Ralph Martin diz que os mestres discutidos em Filipenses 3.12-14 são judeus. Eles blazonam da circuncisão (3.2), a que Paulo replica com uma afirmação da igreja como sendo o verdadeiro Israel (3.3). Eles se gloriam na “carne”, cortada na execução do rito; ele se gloria em Cristo, apenas. Eles se orgulham de suas vantagens, especialmente seu conhecimento de Deu; ele só encontra verdadeiro conhecimento de Deus em Cristo. A justiça deles é baseada na lei (3.9). Sua confiança descança na dádiva de Deus. Os judeus buscavam e esperam obter justiça. Paulo fixa seus olhos em alvos diferentes e anseia por ganhar a Cristo. Esses falsos mestres viviam como inimigos da cruz – em seu comportamento, deificando seus apetites, honrando valores vergonhosos, só pensando nas coisas deste mundo (3.19).

Paulo tem que lidar também que os missionários gnósticos perfeccionistas. Eles alardeiam seu “conhecimento” (3.8) e professam ter alcançado uma ressurreição, já experimentada, dentre os mortos (3.10). São “perfeitos” (3.12). Esses gnósticos são, de fato, inimigos da cruz de Cristo (3.18) libertinos e condenados (3.19).

4. As principais ênfases desta carta
A carta aos Filipenses não é um tratado teológico como Romanos, Efésios e Colossenses. Ela é uma carta pessoal, que trata de assuntos pessoais, porém, esses temas são abordados teológicamente. Vamos destacar aqui algumas ênfases principais:

Em primeiro lugar, a alegria. Esta é a carta da alegria. Transborda dessa carta uma alegria indizível e cheia de glória. O tom da alegria no Senhor perpassa toda a carta. O conceito de “regozijai-vos” e “alegria” aparecem dezesseis vezes nesta carta (1.4; 1.18; 1.25; 2.2; 2.28; 3.1; 4.1; 4.4; 4.11). Bruce B. Barton diz que as páginas desta carta irradiam a positiva e triunfante mensagem que em razão da obra de Cristo por nós (2.6-11; 3.12), da ação do Espírito Santo em e através de nós (1.6; 1.12-14; 1.18-26; 2.12,13; 4.4-7; 4.10-13) e em razão do plano de Deus para nós (1.6,9,10; 3.7-14; 3.20,21; 4.19), podemos e devemos nos regozijar. Mesmo Paulo estando preso, oprimido por circunstâncias adversas, ele irrompe em brados de alegria, relando que a alegria verdadeira é imperativa, ultracircunstancial e Cristocêntrica (Fp 4.4).

Em segundo lugar, a unidade cristã. Depois de dar primazia a Cristo no capítulo 1, Paulo revela que o outro deve vir antes do eu. O amor não é egocentralizado, mas outrocentralizado. O segredo da unidade é sempre colocar o interesse dos outros na frente do nosso interesse pessoal. No capítulo 2 Paulo cita quatro exemplos daqueles que pensam no outro antes que no eu: Cristo, ele próprio, Timóteo e Epafrodito.

Em terceiro lugar, a pessoa de Cristo. Cristo é a figura central desta carta. Ele é o elo de união entre todas as outras partes. Ele é o Senhor plenamente divino (Fp 2.6), exaltado (2.9-11). Ele é o Jesus da cruz (2.8; 3.18; 1.29), aquele que virá em glória para nos transformar (3.21; 1.11).

Em quarto lugar, a segunda vinda de Cristo. Há seis referências à segunda vinda de Cristo nesta carta (1.6,10; 2.16; 2.9-11; 3.20,21; 4.5). Para este dia Deus Pai está trabalhando, a fim de que toda criatura sem exceção se dobre aos pés do Senhor Jesus (2.9-11) e todo aquele em quem ele começou sua obra esteja pronto para aquele grande dia (1.6). Para aquele dia os cristãos também devem trabalhar. Precisamos viver como ele viveu (1.10), produzindo frutos de justiça (1.11), esforçando-nos para trazer outros à fé para que nos alegremos juntos ante ao seu trono (2.16,17; 4.5). Para este dia, também, o próprio Cristo está trabalhando. Quando ele manifestar sua glória, todo inimigo irá se curvar (Fp 2.9-11). Então seremos transformados à sua semelhança (3.20,21). A alegria e a unidade cristã tem como fundamento Cristo e a expectativa da sua vinda gloriosa.

Rev. Hernandes Dias Lopes

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